Minha prima, em Miami

É bom ter parente abonado? Ainda estou em dúvida. Butterfly Ferri, prima em segundo grau, mora em Miami, onde nasceu. O pai norte-americano, se é possível dizer assim, tem uma nota para lá de preta. Grana que não acaba mais. Por isso, eles vivem no paraíso ou bem próximo dele. Dinheiro atrai dinheiro e quanto mais o pai da bela moça ganha tanto mais tem para ganhar. Assim, sem muito esforço. Fecha negócio, abre negócio, duas megassenas por quinzena. Sem fila, encheção de saco ou gente suada. Os investimentos correm mundo e vão de agulha a avião. Nada de coisa mixuruca, como reciclagem de pneu, asfalto ou agiotagem de pequena escala. Coisas na China, Noruega, França, empresas do largo mundo. Butterfly tem esse nome porque nasceu no dia 13 de abril de 1988. Borboleta e tigre: ela é borboleta e minha mãe, sua tia-avó, é tigre no horóscopo chinês. O culto pelo horóscopo chinês é lembrança dum tio avô de meu pai, capitão da marinha italiana que se sumiu, não se sabe como, na China. Federico Ferri era o seu nome.Passou por Santos, entregou um belo casaco para a irmã, minha bisavó Giuliana, e babau. A mãe de Butterfly deu à filha o nome de família de nosso tio. No momento, ela está para receber o diploma da Design and Architecture High School, escola para poucos e bons. Butterfly, apesar de certa estranheza de nascença localizada no alto da cabeça, tem tutano e adora livros. Miami tem bibliotecas e mais bibliotecas, além de jardins e praças fantásticos, quer dizer, aquelas coisas lindíssimas que só se vêem no Fantástico da Globo.Ela adora a Coral Gables Branch Library, mas nutre interesse especial pela seção The Manuel R. Bustamante collection/Cuban Heritage collection da University of Miami Librairies. Uma vez por mês, ela folheia, com lente e luvas, a coleção de fotos antigas da velha Cuba que não existe mais: anos que vão de 1910 a 1930. A Cuba dos ricos, a Cuba que não volta mais. Butterfly domina o Espanhol como se fosse cubana nata. Dinheiro grosso, como eu disse, não é nem jamais será problema para o pai de Butterfly, todavia, como nunca se sabe o que os comunistas ou socialistas enlouquecidos vão aprontar amanhã ou depois, o pai da moça tem uma montanha de ouro, jóias, euros e dólares no Barclays offshore. Offshore é uma palavrinha danada de esperta, porque o tutu estará ali para qualquer emergência e jamais estará ali para o feroz leão da Metro. Entendeu? O pai de Butterfly entendeu muito bem o recado do octogenário Plínio, um varapau capaz de convidar o arcebispo de Aquidauana para catar coquinho na descida. Escreveu, não leu, o pau comeu.No momento, Butterfly mora num apartamentozinho de 751 m2, no número 17885 da Collins Avenue. O pai nem pestanejou diante da pechincha. Comprou-o à vista por 6,900,ooo.oo USD. Presentinho de 15 anos. Os miliardários do condomínio fingem que não vêem as borboletas esvoaçantes na cabeça de Butterfly.Eu continuo pobre, mas, como dizia meu ex-patrão, um dia vai dar borboleta!A garota não me deixa mentir sozinho!

 Luiz Roberto Benatti

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