Álbum de recordações da guerra

Se a vida, como escreveu Manuel Bandeira, “nos chegava pelos jornais”, e, se jornais não havia entre nós, a vida, de fato, achava-se distante, do outro lado do Atlântico, e estávamos irremediavelmente longe dela. Não se tratava da vida de todos os dias – acordar, ir para o trabalho -, mas do movimento, a balbúrdia, os grandes gestos, o enfrentamento do inimigo, a bravura, o fuzil, os estampidos enlouquecedores, a chuva intermitente nas trincheiras infestadas de ratos, o medo do lança-chamas. A Grande Guerra, rápido, desatualizou os temas novos, porém aquecidos, debatidos pela Internacional Socialista, com Jean Jaurès,

Rosa Luxemburgo, Klara Zeitkin, Karl Liebknecht, Karl Kautsky, fazendo com que triunfassem as proposições conservadoras de Eduardo Bernstein. Até 1914, a classe operária, adestrada na luta, azeitara a correia de transmissão do socialismo marxista contra os curtocircuitos dos capitalistas em favor da batalha mundial e o conseqüente acúmulo de lucro. Com o fim da guerra, o capital burguês, sobrevivente e assanhado, pôde voltar a dormir o largo sono dos injustos, uma vez que aquelas criaturas lúcidas, porém incômodas, do velho marxismo, estavam mortas e o movimento operário quase em frangalhos. Enfim, as condições do terreno haviam se tornado inteiramente favoráveis à semeadura dos vários fascismos. Como a Primeira Grande Guerra não pôde vir até nós nem nós soubemos, como Hemingway, ir até ela, talvez possamos passar os olhos pela presente coleção de fotos escolhidas, não para rir-se ou enojar-se, mas para comprovar que a Grande Guerra foi a derradeira das batalhas líricas, que ela se processou na imensa zona rural da Europa e que, por mais incrível que pareça, tais cenas estavam bem próximas de nós (entrevistas da janela da cozinha de fogão de lenha), desde que aceitássemos trocar enxada por fuzil, chapéu por quépi, trincheira por sulco aberto na gleba, arado por canhão, gás mostarda por tifo. A Grande Guerra desenhou-se segundo certo cotidiano jamais recuperado: ela pôs fim à aparência de vida singela, ao mundo das trocas locais, ao bacalhau pendurado num arame na porta da venda, à manteiga feita em casa, aos pequenos favores, à rica proximidade entre pessoas comuns, ao médico de família, ao administrador solteirão que morava na casa ao lado, havia namorado nossa tia Olga e ainda cultivava o hábito saudável de andar a pé, ao pároco de aldeia, mais versado em fazer o bem do que em queimar as pestanas na exegese da Bíblia, à incômoda noção de pátria que levou os basbaques a pensar que Hitler e Mussolini fossem, de fato, o que jamais puderam ser.Essas duas criaturas foram tão convincentes ao pronunciar discursos a favor da guerra, que os singelos esqueceram-se de que nossa realidade estava na lavoura e não no fronte rural e impessoal. Na Primeira Guerra Mundial, Aquiles, impiedoso, voltou a matar Heitor, mas, transtornado, suicidou-se a seguir, enquanto Homero tratou de embriagar-se até madrugada alta com James Joyce. A guerra pôs fim a todos os sonhos sobre a guerra como expressão da mais elevada estética. Se Nietzsche estava morto, tudo era possível. [Caso você tenha gostado deste capítulo da história de Catanduva, vá ao site WWW.sickranoecia.com.br onde encontrará informações preciosas sobre imigrantes, cultura e pessoas que, hoje desconhecidas, contribuíram para a formação da cidade.]

Luiz Roberto Benatti

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