O futuro já começou

Para Allyson Leandro Mascaro, ex-toto corde 

Vista de cima, e estendida ao sol ao longo de 292 km2, CTV é semelhante a um jacaré-do-papo-amarelo, cuja cauda tivesse sido devorada por uma das cidades circundantes: Marapoama, Pindorama, Ariranha, Elisiário, Novais, Catiguá, Itajobi, Tabapuã, Palmares Paulista, Roberto, Paraíso e Embaúba. Quem o alimentou com crustáceos e pequenos mamíferos nos tempos heróicos da vila foi o saudoso Minguta.Quando o viu ainda pequeno Padre Albino teve medo do caiman latirostris, mas Minguta o tranqüilizou.
O jacaré rápido afastou-se, meio receoso, meio reverente.Mirabilis/milagre/foi o que se viu e disseram, a cauda,porém, não irá regenerar-se jamais:a cidade trancou-se em si mesma, enclausurou-se, fera ferida e enjaulada, sem território por onde alongar-se.Como localidade condenada ao suplício do confinamento ou, quem sabe, até mesmo do encolhimento se levarmos em conta que, de 2004 a 2007, 1º.) ela perdeu 4 mil habitantes, a par do aumento no número de idosos e 2º.) perdeu quase toda a fímbria entre a zona suburbana e rural para a plantação de cana e a inconseqüente especulação imobiliária.Ao contrário do que afirmou Graham Greene, aqui quem perde perdido estará.
Desse modo, ela terá, como Camões, de invocar os deuses para ser merecedora de “engenho e arte” e salvar-se pela inteligência.Tutano, enfim, para pensar. Em vez de crescer de maneira orgânica ou espontânea, CTV terá de expandir-se com o melhor do nicho criativo de seu cérebro.Como afirmou Percy Bisshe Shelley, “Fear not for the future, weep not for the past”, quer dizer,”Sem temer o futuro nem lamentar o passado”. Carecemos de símbolos, afirma com linguagem descontraída Allysson Mascaro. O símbolo penetra fundo com suas raízes no chão da imanência.Das velhas metáforas, a mais próxima de nós talvez tenha sido a Avenida Alberto Santos Dummont, continuação da Rua Ceará. Não é que o nome de batismo nos conduzisse a algo excepcional , mas o que se deu, de fato, é que o avião transporta a grande metáfora dos pássaros.Tínhamos o avião, ficamos com o político.
O nome substituto não nos transporta a lugar algum. Santos Dummont, por uns poucos minutos, contornou a Torre Eiffel, símbolo da idade moderna da França.Quando eles pareceram cansar-se da torre e do Arco do Triunfo, ergueram o fabuloso Arco da Defesa.Em Praga, você visita a céu aberto o mágico Relógio Astronômico;em Java, extasia-se diante da estátua de Buda no templo de Borobodur.Imanência e transcendência. Há símbolos no mundo inteiro, mas em CTV o pracinha da 9 de Julho está cada vez mais descarnado.
O que fazer sem símbolos?Depois do almoço, nos fins de semana e feriados, enquanto a cidade ressona, a moçada sai à rua,motocicleta de escapamento aberto, garota na garupa e lata de cerveja à mão. Cultura do consumo, monumento à cerveja, o chão áspero da perda da linguagem, o picotamento do pensamento reflexivo.
O administrador deverá dar à cidade remédio para curar-se de carências e doenças:parque náutico público, restaurante popular para muitos, balé, biblioteca pública saturada de livros e bem arejada, levar a moçada à rua para expor, mostrar, trocar, comprar, com idéias na cabeça e sem lata de cerveja à mão, conter, confinar e orientar a absurda máquina automobilística antes que a entropia comece a ninar na garagem os nossos carros, música, cultura urbana,feira e mais feira:do doce, do salgado, cozinha oriental, ocidental e transcendental. Para cima, moçada, de olho na viga!O passado carunchou e o futuro ainda não ingeriu anabolizante.

Como a moda, a gripe vai e volta e, no retorno, ela ceifa vidas sem dó nem piedade. Para o historiador, chamá-la, como o fazemos agora, de gripe aviária ou suína significa, talvez, desorientar a criatura humana quase sempre desassossegada com desacertos do dia-a-dia.
A gripe é endêmica nesses animais, razão por que, quase sempre, ela migra da Ásia para o restante do mundo. Além dos galináceos que com ela convivem desde a aurora dos tempos, os patos, migratórios, descem do alto para a superfície dos grandes lagos asiáticos para banhar-se e tomar água, que os porcos criados soltos tomam e, com o líquido, fragmentos de fezes das aves.
O resto do percurso, faz-se pelo deslocamento cada vez mais volumoso das pessoas pelo globo. Se é verdade que não costumamos de bom grado dividir com nossos pares caraminguás preciosos, partilhamos com eles o perdigoto do espirro e o gracioso aperto de mão. Há pouco, a Organização Mundial da Saúde advertiu as autoridades do mundo inteiro para o grau de periculosidade de grau 5 da gripe.Além do retorno da gripe, há outro fato que nos remete à Primeira Grande Guerra: o conflito bélico do Oriente Médio. Gripe e guerra formam o par perfeito para a instalação e a difusão das doenças, mas também para a dilapidação da economia.Como se deram as coisas em 1914-1918?

À Primeira Guerra Mundial, nos estertores finais, seguiu-se a gripe espanhola. Desgraça pouca é bobagem. Viam-se cenas muito parecidas com as dos fotogramas de O sétimo selo do cineasta sueco Ingmar Bergman: corpos fragilizados, almas esmorecidas, perda do sentido de reconstrução e continuidade da vida. A gripe desencadeou-se no justo instante em que Vila Adolfo estava para virar Catanduva.
Mato ralo e cidade em formação. Festa de Carnaval, do Clube 7 para cima, pela emancipação política – e procissão de trevas pela exorcização da gripe. Eram tantos os que tombavam mortos, que os coveiros não dispunham de caixões suficientes para agasalhar corpos quase-febris.Foram atirá-los em covas rasas, cobertos de cal, ao longo da Rua Sergipe, um pouco acima do antigo leito do Rio São Domingos (pela Rua Paraíba), do centro mal arrumado até os confins do SENAC.
Do leito do rio, Maranhão acima, a Sergipe é o primeiro degrau de terreno sólido, numa topografia que se fez por talvegues ou um pouco parecida com o dorso dum serrote.
A gripe espanhola não se originou na Espanha
Apesar do codinome que a tornou conhecida no mundo todo, a gripe espanhola não se originou na Espanha, mas provavelmente num acampamento de soldados do Kansas, nos EUA, prontos para embarcar para a Europa em guerra.Havia 26000 soldados nas barracas e, no dia 1o. de março de 1918, 107 deles manifestaram gripe severa e faleceram.No entanto, os sobreviventes, hospedeiros do vírus, seguiram para o fronte.
O apelido se impôs porque o rei de Espanha foi uma de suas primeiras vítimas notórias. A pandemia pode ter surgido nas trincheiras francesas infestadas de ratos: houve surtos em Brest e St. Nazaire, mais tarde associados com a chegada das tropas norte-americanas. É provável que na primavera de 1919, alastrada por quase todas as nações do mundo, a gripe tivesse atingido o ápice com 27 milhões de mortos, a maioria dos quais na África, Índia e China. Dois milhões e 200 mil mortos por mês.

O mal era velocíssimo e devastador: em junho de 1918, 160.000 berlinenses foram contagiados e, na Filadélfia, nos EUA, 650 num único dia. Em razão da inexistência de antibióticos, recomendavam-se remédios caseiros e tisanas, como rapé, toalhas embebidas em vinagre quente, doses fortes de uísque ou gengibre, soda e açúcar em copo de leite quente. Médicos especialistas advertiam para o uso obrigatório de máscara como meio único de evitar-se o contágio.

Mais tarde, assim como veio, a gripe passou. Na arte surrealista de ceifar vidas, a gripe foi o mais eficiente dos coadjuvantes da Primeira Guerra Mundial..

Luiz Roberto Benatti

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