O clube dos italianos

italianosApesar de a Sociedade Italiana, da Rua Alagoas, chamar-se Gabriele D’Annunzio e D’Annunzio ter sido um histrião de truques e gestos estapafúrdios e discursos pré-fascistas (confira-se o episódio de Fiume) recheados de delírio, nem todos os italianos e seus descendentes, freqüentadores do clube por 80 anos, foram politicamente conservadores ou admiradores do segundo Mussolini, porque o primeiro foi socialista. O clube tem a idade do Município e os homens que o fundaram tinham algo em torno dos 40, na época -, portanto já se achavam preparados para escolher tanto os piores quanto os melhores caminhos de política e vida pessoal. O que pensavam Muscari, Vanalli, Gerosa, Florenzano, Ruta, Zaccaro, Spanazzi ou Senise? Liam O Avanti! Paulistano? Conheciam as proposições fundamentais da Internacional Socialista, ou Marx e Lênine?[Antonio Gramsci, o fundador do PCI, saudou nO Avanti! de Benito Mussolini a revolução russa de 1917.] Em que Língua? Tinham-se deixado seduzir por rompantes patrióticos acerca da guerra? Defendiam o ponto de vista de que a República deveria ser resguardada malgrado as proposições deletérias do bolchevismo? O Avanti!?Eram abonados para assiná-lo, ou muitos deles apertavam o orçamento de família para poder quitar a mensalidade do clube de socorro mútuo? Socorro mútuo, porque, como lembrou Lênine, decretada a greve, os operários teriam de comer e beber até que os braços, de novo, se descruzassem e os obreiros retornassem à fábrica. De 1902 a 1904 e, mais tarde, de 1914 a 1920, o jornal foi o órgão oficial do Partido Socialista Brasileiro, imprimia e distribuía 8000 exemplares, mas quem o assinava em CTV? O clube estreou em 22 de fevereiro de 1920, no mesmo ano em que Luiz Carlos Prestes graduou-se como tenente-engenheiro da Escola Militar do Realengo, no RJ, com Siqueira Campos e Eduardo Gomes. De certa forma, iríamos resgatar, com roupagens próprias, acertos e desacertos, o episódio Dreyfuss. O assalto ao Forte de Copacabana estava bem ali e, logo à frente, a Revolução de 30. O Brasil, como queria Euclides da Cunha, tinha de modernizar-se, pôr fim à miséria herdada da velha República, mas a consecução disso foi muito morosa e, talvez, nem se tenha completado. Para a Itália e os italianos, 1920 foi ano de grandes definições, agitações e greves operárias, ou, como escreveu Robert Paris, “o ano da guinada: revolução ou reação”. No jornal Il popolo d’Italia, de junho de 1919, Mussolini entregou a Fernando Collor de Melo a chave do seqüestro do capital circulante: “Queremos um grande imposto extraordinário de caráter progressivo sobre o capital, que represente uma autêntica expropriação parcial de todas as riquezas”. Collor foi moderno apenas na indumentária. 1919-1920 foi também o ano de lançamento ,na Alemanha, do panfleto Os protocolos dos sábios de Sião, originalmente escrito contra Napoleão III. Em poucos dias, venderam-se 300.000 exemplares. Repetida muitas vezes, a mentira transforma-se em verdade. Apesar de o País ter produzido, em 1915, 17 milhões de sacos de café ou 1 milhão de quilos, só em abril daquele ano o prefeito Francisco de Araújo Pinto mandou construir as duas primeiras pontes de madeira da cidade: na Rua Maranhão, sobre o Rio São Domingos, e na 15 de Novembro, sobre o Rio Cerradinho. Nossa aparência quase-rural na época comprova-se pela publicação do Dialeto caipira, de Amadeu Amaral, em SP, mas que se aplicava perfeitamente bem a nós na província. [continua]

Luiz Roberto Benatti

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