CTV, a gripe espanhola e o cemitério invisível

gripeComo a moda, a gripe vai e volta e, no retorno, ela ceifa vidas sem dó nem piedade. Para o historiador, chamá-la, como o fazemos agora, de gripe aviária ou suína significa, talvez, desorientar a criatura humana quase sempre desassossegada com desacertos do dia-a-dia.

A gripe é endêmica nesses animais, razão por que, quase sempre, ela migra da Ásia para o restante do mundo. Além dos galináceos que com ela convivem desde a aurora dos tempos, os patos, migratórios, descem do alto para a superfície dos grandes lagos asiáticos para banhar-se e tomar água, que os porcos criados soltos tomam e, com o líquido, fragmento de fezes das aves.

O resto do percurso, faz-se pelo deslocamento cada vez mais volumoso das pessoas pelo globo. Se é verdade que não costumamos de bom grado dividir com nossos pares caraminguás preciosos, partilhamos com eles o perdigoto do espirro e o gracioso aperto de mão. Há pouco, a Organização Mundial da Saúde advertiu as autoridades do mundo inteiro para o grau de periculosidade de grau 5 da gripe.Leiam o Levítico. Além do retorno da gripe, há outro fato que nos remete à Primeira Grande Guerra: o conflito bélico do Oriente Médio. Gripe e guerra formam o par perfeito para a instalação e a difusão das doenças, mas também para a dilapidação da economia.Como se deram as coisas em 1914-1918?

À Primeira Guerra Mundial, nos estertores finais, seguiu-se a gripe espanhola. Desgraça pouca é bobagem. Viam-se cenas muito parecidas com as dos fotogramas de O sétimo selo do cineasta sueco Ingmar Bergman: corpos fragilizados, almas esmorecidas, perda do sentido de reconstrução e continuidade da vida. A gripe desencadeou-se no justo instante em que Vila Adolfo estava para virar Catanduva.

Mato ralo e cidade em formação. Festa de Carnaval, do Clube 7 para cima, pela emancipação política – e procissão de trevas pela exorcização da gripe. Eram tantos os que tombavam mortos, que os coveiros não dispunham de caixões suficientes para agasalhar corpos quase-febris.Foram atirá-los em covas rasas, cobertos de cal, ao longo da Rua Sergipe, um pouco acima do antigo leito do Rio São Domingos (pela Rua Paraíba), do centro mal arrumado até os confins do SENAC.

Do leito do rio, Maranhão acima, a Sergipe é o primeiro degrau de terreno sólido, numa topografia que se fez por talvegues ou um pouco parecida com o dorso dum serrote.

A gripe espanhola não se originou na Espanha

Apesar do codinome que a tornou conhecida no mundo todo, a gripe espanhola não se originou na Espanha, mas provavelmente num acampamento de soldados do Kansas, nos EUA, prontos para embarcar para a Europa em guerra.Havia 26000 soldados nas barracas e, no dia 1o. de março de 1918, 107 deles manifestaram gripe severa e faleceram.No entanto, os sobreviventes, hospedeiros do vírus, seguiram para o fronte. Quem se safou da gripe, contaminou companheiros e inimigos.

O apelido se impôs porque o rei de Espanha foi uma de suas primeiras vítimas notórias. A pandemia pode ter surgido nas trincheiras francesas infestadas de ratos: houve surtos em Brest e St. Nazaire, mais tarde associados com a chegada das tropas norte-americanas. É provável que na primavera de 1919, alastrada por quase todas as nações do mundo, a gripe tivesse atingido o ápice com 27 milhões de mortos, a maioria dos quais na África, Índia e China. Dois milhões e 200 mil mortos por mês.

O mal era velocíssimo e devastador: em junho de 1918, 160.000 berlinenses foram contagiados e, na Filadélfia, nos EUA, 650 num único dia. Em razão da inexistência de antibióticos, recomendavam-se remédios caseiros e tisanas, como rapé, toalhas embebidas em vinagre quente, doses fortes de uísque ou gengibre, soda e açúcar em copo de leite quente. Em nossos dias, ainda alimentamos a fantasia de que uma boa chiboca nos cura da flu e suas variantes. Médicos especialistas advertiam para o uso obrigatório de máscara como meio único de evitar-se o contágio.

Mais tarde, assim como veio, a gripe passou. Na arte surrealista de ceifar vidas, a gripe foi o mais eficiente dos coadjuvantes da Primeira Guerra Mundial.

LRB

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