A palavra é um lagarto, cuja cauda está lá atrás e cuja cabeça não se acha em lugar algum

lagartoLula referiu-se aos opositores como cidadãos que ecoam vozes que não passam de “timbres do passado”. Ora, como as palavras ditas aqui ou noutros lugares do vasto mundo estão recobertas pela fuligem do tempo, é de crer que algum leitor de Mário de Andrade incumbido de dizer baixinho ao Lula o que ele deveria tagarelar com voz cava  estivesse louco para fazer uso público do vocábulo “timbre”, por Mário usado  num poema meio eisenstainiano ou vertoviano em que a câmara-olho perfura a neblina paulistana para descobrir que o branco era na verdade negro, assim como o pobre era rico ou vice-versa. Ser e parecer, marca inconfundível do velho PT, o partido que aparenta ser o que não é.A “garoa” é de fato o símbolo da alienação.  Leia o poema do Mário:

Garoa do Meu São Paulo (Mário de Andrade)

Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos…

Garoa, sai dos meus olhos.

Luiz Roberto Benatti

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