Henry Ford, ser divino da imanência

carroQuando anunciou o início da fabricação do modelo T, Ford falou de seu invento para quem estava nas proximidades, mas também para  os pósteros, com a   surpreendente clareza de propósitos  que o silencioso e discreto  Demiurgo não deixara  vir à tona no instante em que “fabricou” Adão.O Demiurgo produziu o motorista e Ford sua res extensa, o automóvel.Hoje o carro é nosso senhor, monarca mecânico e absolutista que nos empresta dignidade e distinção de classe social. Só a população da periferia ainda partilha com vizinho ou membro da família um lugar na motocicleta, porque o carro nos faz flanar no asfalto narcisicamente sós e felizes. Uma caminhonete de carroceria coberta, sob cuja lona não transportamos nem bolota de papel, nos conduz aos píncaros da glória, em cujo pódio experimentamos a sensação de ser criaturas sobre-humanas. Quem tem carro não vai a rumo, mas o papa passeia por Roma no papa-móvel. Naqueles anos tão longínquos de 1903, Ford falou para o futuro: “Irei construir um carro para a grande multidão. Será suficientemente  grande para abrigar a família, mas igualmente  pequeno para o uso individual (…) Será feito com o melhor material por operários competentes, com base nos  projetos mais  simples que a moderna engenharia puder conceber. No entanto, será vendido por baixo preço, de tal modo que o sujeito assalariado poderá ter o seu e andar por aí nos largos espaços criados por Deus”. No corrente ano, em 7 de outubro,  a primeira linha de montagem de Henry Ford completará cem anos.

Luiz Roberto Benatti

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