As marcas da dúvida: São Tomé e o 32

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Luiz Roberto Benatti

Em escala bem menor que o tumulto do passe livre, o 32 gritou nas ruas o nome de sua fúria, entregou o anel de ouro, trocou o terno pelo uniforme cáqui, pitou um cigarrinho para sair como galã de Hollywood na foto. A rapaziada do passe livre rumou para a Paulista, pau e pedra na mão; alguns do 32 abeiraram-se do túnel da Mantiqueira. As refregas deram-se em muitos lugares, mas o fotógrafo chegou depois. Quem tombou onde e quando? Quem voltou para casa sem a metade direita da face? São Tomé, míope por conveniência, pergunta-se se, de fato, o 32 foi mais ou menos a batalha do Marne que não vimos, ou se o Tietê não poderia ter sido o nosso Rio Verdum? Descrente de tudo e de todos ,desde a infância, São Tomé recortava de velhas revistas da Primeira guerra mundial fragmentos do cenário da grande peça A morte do Ocidente, até que, instruído por Braque e Picasso, picotou o álbum e misturou aquelas imagens com umas poucas que coletou nos jornais do 32. Assim, o que temos para ver é a bricollage do possível como se provável fosse. O 32 alimenta nosso imaginário bélico e fez de nós a Europa que não vimos. Quantas feridas poderiam comprovar que com granada desventrada não se brinca?

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