Já fomos modernos um dia

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Luiz Roberto Benatti

A segunda versão do prédio do Banco do Brasil (a primeira localizou-se num edifício térreo, porém imponente, na esquina da Rua Brasil com a Sergipe, no lugar do atual Banco Itaú) inaugurou-se em 13 de setembro de 1950, poucos dias antes das eleições que conduziriam Vargas ao poder e, a seguir, ao suicídio. Como a primeira, a segunda também se desfez: em seu lugar vemos hoje o caixote sarcofágico da Caixa Econômica Federal, na Rua Brasil com a Alagoas. Como Jonas engolido pela baleia, o BB sumiu-se no estômago da Caixa, a Federação deglutiu o Estado e certa graça do puro moderno deu lugar à feiúra do pós-moderno, ainda que as cidades industriais da segunda metade do século XIX fossem sujas, ruidosas e muito feias. A conseqüência da deglutição do edifício original por outro de estilo brutalista foi que nos perdemos do bom caminho da arquitetura brasileira moderna, aberto por Le Corbusier e Oscar Niemeyer, e, mais próximo de nós, por Edgar Guimarães Valle, autor do projeto do BB. Quem se deu conta da superior qualidade arquitetônica do segundo prédio do BB e suas exponenciais qualidades de função foi Antonio Zaccaro num artigo publicado na revista O século. Ao projetar o belíssimo edifício do Correio, na Rua Pará/Paraíba, Zaccaro o fez inspirado no BB. Infelizmente, esse prédio virou posta-restante. O ato de assimilação dum edifício por outro não atingiu apenas o prédio do BB, mas disjuntou-nos, de modo irremediável, de nossas raízes mineiras dos Borges, Figueiredo e os anônimos. O caso de Edgar Valle é especial porque, em Cataguazes, na Zona da Mata de MG, onde poderemos percorrer acervo notável de arquitetura moderna, com ousadia, ele projetou a Igreja Matriz de Santa Rita, em 1944, antes que Le Corbusier, na França, projetasse a Capela de Ronchamp e Mies van der Rohe, o Lake shore drive de Chicago; no ano em que o prefeito Sylvio Salles deu início à construção do Parque das Américas, mas também o de estréia da Rádio Difusora ZYD-5. Caminhávamos rápido na direção da modernidade. Quando a arquitetura é, de fato, moderna e o que significa isso? Houve gestualidade de traços modernos em Le Corbusier? Caso a resposta seja positiva para o arquiteto europeu, terá havido também para o carioca Oscar Niemeyer, seu discípulo. Em CTV, a arquitetura mais antiga, reivindicação oficial do Estado, ou resultante do gosto e do investimento particular, instalou-se, para ali abrigar-se, no alto dos dois grandes cones: o da parte velha da cidade ,ou vila monárquica, no Higienópolis; e o da parte nova, ou cidade republicana, no centro e derredores. Seja como for, a definição precisa de moderno entre nós ficou prejudicada pela atitude imobilista e os discursos inócuos dos sindicatos que, ao contrário dos europeus, norte-americanos ou soviéticos, não souberam exigir que às classes empobrecidas, porém operosas, o poder público mandasse projetar moradias capazes de assimilar ventilação, dimensionamento humano e funcionalidade. Modernidade e responsabilidade social, enfim, como se fez na época do New Deal de Roosevel, nos EUA.

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