Cultura, um jogo para desarmar-se

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Luiz Roberto Benatti

Por não saber bem onde enquadrá-lo, os críticos botaram Luís Buñuel na prateleira do Surrealismo, onde ele ficará até que o formol da classificação perca de vez o poder corrosivo, a partir de cujo momento iríamos vê-lo como aquele que, segundo Octávio Paz, “buscou sempre nova realidade … escandalosa e subversiva”. Subversiva porque seus filmes eram desorganizadores, revolucionários, destruidores, arruinadores. Espanhol ruim como a peste. Nele, ou você se senta e vai até o fim, para voltar no dia seguinte, ou então rasga a tela, põe fogo na poltrona e sai para esfriar a cabeça na fonte da esquina. Buñuel odiava que você continuasse a dormir o sono dos injustos. Todavia, o enredo de seus filmes e a linguagem final em que foram vazados era de parir ouriço, complicada, metafórica, estranha, maldita. Arte e linguagem revolucionárias. Em Viridiana, p. ex., ele reproduziu à sua moda a santa ceia, em que um bando de mendigos, feios, sujos, malvados e maltrapilhos, toma não a última mas a primeira das refeições indicativas de que os miseráveis & ofendidos por fim herdarão a Terra. São 13, para dar azar. Filme após filme, Buñuel quis lembrar-nos de que a classe trabalhadora ainda não assinou o esboço do fim da pré-história, porque na História ela ainda não teve vez nem voz. Há algum tempo, no País, o tempo passava e somente a poupança Bamerindus continuava numa boa. A poupança serve apenas para reprimir um pouco mais o consumo dos remediados, para os quais não há remédio além do grude de todos os dias. Não há registros bem lavrados das cenas de exploração: para os negros, p.ex., não aportasse aqui o nobre Debret, jamais teríamos visto o que se fez: o desprezo absoluto dos miseráveis e a deslavada exploração da força de trabalho gratuita. A coisa continua porque o único regime administrativo que encanta a classe mandante é a monarquia. Nada melhor do que estar na corte ou fazer parte do entorno real. O prédio dos teatros, o MASP, o MAM, os resorts, o avião, o iate, viagens para o exterior, a universidade, o restaurante, a escola, a novela, o jornal com suas notícias, os shoppings foram feitos como objetos de consumo da classe dominante. Os miseráveis estão numa trincheira enlameada e infestada de ratos. Na letra dum funk norte-americano – Rádio guerrilha – lemos: “Espetáculo monopolizado/ câmeras-0lhos disfarçados na escolha/ oferecidos à massa que apodrece e trabalha? ou para os predadores que têm sede de sangue e petróleo?”

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