Diário do colono Giuseppe Sartori

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[Navio de imigrantes italianos e mansão de cafeicultor na Av. Paulista: a seta vermelha à direita aponta para o famoso chapéu de Alberto Santos Dummont, filho de Henrique Dummont.]

Luiz Roberto Benatti

 Depois de desembarcar de navio no porto de Santos, só, ou então acompanhado de mulher e filhos, mãe ou sogra, o estrangeiro Giuseppe Sartori rápido dirigiu-se à ospedaria Hospedaria dos Imigrantes para cuidar da identificação e o pernoite e dali rumar para uma das  lavouras cafeeiras de Henrique Dumont.Quem tem boca vai a rumo, desde que não lhe falte prumo.  O encarregado adiantou-lhe dinheiro para as despesas iniciais. Caso Sartori viesse a ser despedido antes do final do contrato de 4 anos, os bens caucionados – animais ou colheita – iriam quitar-lhe a dívida contraída no primeiro dia de trabalho. Anos mais tarde, num dos vários discursos pronunciados durante a campanha civilista à presidência da República, Ruy Barbosa sublinhou a unilateralidade do contrato de trabalho firmado entre colono e fazendeiro com os seguintes termos retóricos: “Aqui também as contas dos operários rurais nos armazéns de venda, mantidos nas estâncias e fazendas, enredam os trabalhadores do campo na entrosagem de uma dependência, que, se não é nem o cativeiro, nem a servidão da gleba, tem, pelo menos, desta e daquele as mais dolorosas características morais, as mais sensíveis derrogações da condição humana”. Com pitadas de ironia,  e como convinha a um escocês do século XVIII, David Hume escreveu na Investigação acerca do entendimento humano: “As camadas inferiores do povo e os pequenos proprietários são suficientemente bons juízes de quem não esteja muito distante deles em dignidade e posição social, e portanto, em suas reuniões de freguesia, é provável que escolham o melhor ou aproximadamente o melhor representante; mas são totalmente incompetentes para as reuniões de condado e para eleger os mais altos funcionários da república. Sua ignorância dá aos grandes oportunidade para ludibriá-los”. Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé. Estratégias de sobrevivência? Do couro sai a correia. Em 1918, o salário mensal do trabalhador rural ou urbano oscilava entre 80 e 120$000. Segundo Edgard Leuenroth, uma família operária com 2 filhos e a mulher no eito precisava de 207$650 para viver a duras penas. Supondo que, por acaso,  cada um deles recebesse 90$000, o magérrimo orçamento alcançaria 360$000, valor que os deixaria com folga mínima de 152$350. Com isso, olhavam com espanto para a seguinte tabela de preços: 1 kl de arroz de 2ª.: 8$00, 1 kl de pão: 5$00, 1 kl de macarrão: 14000, 1 kl de carne:1$000, 1 kl de banha: 10$00, 1 terno: 40$000, par de sapato: 12$000, chapéu: 7$000, camisa: 4$000, vestido de chita: 20$000, par de chinelo: 12$000, roupa e calçado para dois filhos: 100$000, fósforo, cigarro, barbeiro e mensalidade da sociedade de socorro mútuo 17$000.  O colono era acordado às 4 da madrugada por toque de sino e às 5,30 começava a labutar na lavoura até o entardecer. Cada colono tocava de 2500 a 4000 pés de café, com as seguintes tarefas: replantio dos pés mortos, 5 carpas e ajuda na colheita. Doze meses de trabalho anual. O salário era pago à razão de 1000 pés por colono, ou seja, de $60 a 90$000, além de 500 ou 600 réis por 50 litros de café colhido. Ciclo de vida do cafeeiro: com um ano de vida, a planta atingia 10 ou 15 cm e despontava acima do monte de gravetos que a protegia do sol; com 10 ou 12 anos, a árvore alcançava a maturidade; no 3º. ano, o pé frutificava-se; aumentava a carga no 4º. ano e no 5º. alcançava boa produção. O empreiteiro Giuseppe Sartori tinha por obrigação formar o cafezal e cuidar dele por 4 anos, em cujo período tratava  também da roça particular de milho ou feijão alinhada com os pés de café. O produto do 4º. ano, por contrato, foi entregue a Sartori. E foi com ele que Giuseppe transferiu-se para o São Domingos do Cerradinho.

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