Entre Nêmesis e Tyché

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Luiz Roberto Benatti

Depois de ter conhecido a glória com a publicação de Os sertões, Euclides da Cunha, talvez para se purgar da nódoa provocada pelo adultério da mulher com Dilermando de Assis, armado de revólver, enfrentou o amante na casa de Piedade no Rio de Janeiro, na qual o jovem Dilermando vivia com a mulher do escritor. Euclides acertou-lhe dois tiros e recebeu outros, um dos quais o matou.Euclides voltara há pouco, depois de ter permanecido dois anos como chefe da comissão mista brasileiro-peruana de demarcação dos limites do Brasil e o Peru, na região do Alto Purus. No entrevero trágico, Dinorah, irmão de Dilermando, foi também alvejado pelo escritor e, embora tivesse sobrevivido, alguns dias mais ficou aleijado. Grande jogador de futebol do Botafogo, Dinorah começou a definhar física e mentalmente. Passou a viver como mendigo depois que o clube o despediu, contraiu sífilis, internou-se em hospício mineiro, tentou se matar na Praia de Botafogo, atirou com revólver contra o próprio peito na Praça da Alfândega em Porto Alegre, até que se afogou no Rio Guaíba em 1921. Dilermando escapou da prisão porque Evaristo de Morais o defendeu com a tese de legítima defesa. Anna, com 33 anos, casou-se com Dilermando, 17. O filho Sólon,que ela gerou com Euclides, revoltado, foi viver no Acre como seringueiro. Em 1916, foi morto por grileiros. Certo dia, disseram a Euclides Filho que Dilermando estava num cartório. Armado, ele tentou matar o amante da mãe, mas recebeu tiro mortal. A primeira tese incorporou-se à primeira e Dilermando, uma vez mais, foi absolvido por legítima defesa. Depois do casamento, o casal adúltero pôs 4 filhos no mundo, um dos quais, Marco, morreu com 7 dias e Luís, logo a seguir, em 1907. Uma neta de Anna, terapeuta, Anna Sharp, deverá publicar parte dum documento de confissão por ela localizado em meio a velhos papéis, no qual a mulher de Euclides defende seu gesto de ousadia e critica gestos de violência com os quais era tratada pela escritor. Entre Nêmesis e Tyché, quando a esperança nos cobre com o manto protetor, Tyché pisca um olho, esfrega as mãos e mexe nos destinos humanos.

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