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TEMPO E O MISTÉRIO

Sérgio Roxo da Fonseca

No domingo o padre narrou aos presentes uma história envolvendo a compra de dois pássaros. Um cantor e outro compositor. Os presentes entenderam a lição contida naquelas palavras e sorriram. Dias depois, estando várias senhoras reunidas, uma delas comentou a história. Para sua surpresa, suas amigas, que estavam ao seu lado na igreja, negaram que tivessem ouvido a história do padre. Há pessoas que olham, mas não enxergam, outras que ouvem, mas não registram. Nós todos com certeza sofremos desses males. Ou desses bens.
Aquelas senhoras, imediatamente, telefonaram para outras pessoas, que sabiam presentes na missa. Umas confirmaram ter ouvido a história. Outras contestaram, dizendo que jamais o padre teria dito o que havia dito. Esses fatos ocorrem com alguma frequência.
O grande escritor argentino Júlio Cortazar narrou que foi ao cinema assistir a um filme clássico e que ficou surpreso com a plateia composta por pessoas estranhas ao culto da intelectualidade. Assim que apagaram as luzes, espantosamente surgiu no palco uma banda composta pelas operárias de uma empresa fabricante de calçados de Buenos Aires. Encerrada a apresentação, as luzes foram acesas e a plateia quase se esvaziou, pois provavelmente composta pelos pais das jovens corneteiras. Somente então o filme foi exibido. Cortazar ficou louco da vida e chegou mesmo a ruminar a ideia de se queixar ao porteiro. Não se queixou, temendo que o porteiro pudesse dizer que, ao contrário do que afirmava,não havia ocorrido nenhuma exibição de banda de música que tudo aquilo não passava do delírio do escritor. Preferiu calar a boca para não fazer papel de bobo.
As nossas memórias têm muitos degraus, variando com a emoção que o tempo deita nelas a título de bom ou mau tempero. Quantas coisas não gostaríamos de lançar no baú do esquecimento e que, no entanto, atasanam as nossas lembranças. Ao revés, muitos fatos felizes são cobertos pelo manto escuro do esquecimento.
Num dia desses encontrei um amigo que muito me agradeceu a indicação de um livro muito famoso que, assim, leu-o de um fôlego, achando-o maravilhoso. Nada disse a ele. Gostaria de lhe dizer, no entanto, que jamais havia passado pelas minhas mãos ou pelos meus olhos a mencionada obra. Seguramente, não tinha partido de mim a indicação beatificada. Intimamente, a minha omissão foi muito bem castigada porque depois comprei o livro, li e não gostei dele. Como se percebe, tratava-se de uma indicação reversa e perversa.
Outras vezes somos vistos em locais muito estranhos, onde jamais estivemos. Ou, conversamos com pessoas que nunca passaram a menos de cem quilômetros de nossas casas. O que fazer? Sair atrás de uma solução prática porém tormentosa como aquela adotada pelas senhoras que foram à missa; ou seguir os passos de Júlio Cortazar evitando descobrir se o delírio era residente no mundo ou na nossa memória? Os argentinos gostam dessas narrativas. Jorge Luís Borges, por exemplo, diz que ,ao passar por uma esquina de Buenos Aires, era sempre atacado pela lembrança da perda de um grande amor. Consolava-se dizendo que só se perde aquilo que nunca se teve. Se alguém teve um grande amor, jamais o perderá porque ele ficará derramado na sua memória para toda a sua existência.
Há um mês, encontrei o telefone de um velho e querido amigo que não o via há cinquenta anos. Foi meu colega de classe. Telefonei para ele a tempo de tomar ciência de que naquele dia havia sido internado em um hospital, onde logo morreu. Não foi possível a despedida tentada. Não encontramos respostas precisas para todas as nossas interrogações, talvez porque o mistério é um companheiro necessário para esta existência. Pudera, o mistério justifica a existência.

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