CTV: os primeiros 20 anos

Luiz Roberto Benatti

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A partir de 1917 (em 18, oficializou-se a emancipação política do município), a cidade escorreu pelas vertentes do São Francisco e Vila Mota, cruzou o charco do futuro Parque das Américas, a ponte de madeira do Rio São Domingos e subiu a Rua Brasil/Rua 3 Na altura do número 500, plantou a Praça da República, na forma de harpa. Em torno da praça, multiplicaram-se os bancos ou casas bancárias, como eram denominadas na época. O antigo BANESPA de Catanduva foi a terceira agência do País. Como o banco não rasga dinheiro nem o distribui aos necessitados na esquina, os historiadores locais deveriam dar-se conta de que a vila dos proprietários de café era musculosa. A Praça da República é feita da mesma matéria de que foi feita a Revolução Francesa antes do Terror e o recuo bonapartista: o lugar do passeio ao sol ou noturno, mas também, como a ágora dos atenienses, o da comunicação política, o lugar em que se discutem as razões ou desrazões do mundo precário.O homem, como disse Aristóteles, é o animal da palavra. A palavra articulada com o entorno político. A palavra repensa o mundo.

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O Cine República era o lugar em que os catanduvenses recebiam sua cota semanal de imaginário, mas também o do debate, da palestra, da música orquestral ou do mágico que tirava o branco coelho da cartola. A Praça da República, bem como a Praça 9 de Julho-Padre Albino não são apenas emblemáticas, mas acima de tudo metonímicas de diferentes sonoridades e visões de mundo e, the last but not the least, metafóricas. Por serem metafóricas, seu verdadeiro sentido estará sempre velado e a tarefa de quem reflete é descobrir-lhe o véu e surpreender-lhe o rosto limpo. Não se trata de mera curiosidade histórica lembrar que essas praças datam dos primeiros anos de formação do município, todavia assinalar a natureza sociopolítica desses logradouros. Ponderemos: Catanduva tinha/tem dois lugares (vamos chamá-los assim) antitéticos: a estação ferroviária e a matriz de São Domingos. As estações, aqui e alhures, por um tempo foram porta de entrada e saída das cidades e, na vida moderna, desempenharam o papel da muralha do castelo medieval: vigiar o estrangeiro, saber quem chegava ou saía, se transportava algum volume misterioso, com quem viajava.Em nosso imaginário, como o estrangeiro não é nosso conhecido, ele se mostra, ou por outra, ele disfarça no bolso interno do paletó o punhal do homicida. O estrangeiro entretém a paranóia até que nossas negras fantasias tornem-se reais. O trem servia/serve ao transporte de mercadorias e aos negócios de seus agentes. A igreja serve ao transporte das almas, à domesticação dos instintos (Sem filhos o mundo se despovoa, mas, para fazê-los, caímos em pecado!), à legalização do conúbio (Na verdade, a loira não é burra, mas insidiosa!). Se a estação vigia o espião, a igreja pune o mau cristão. Ao lado de seus aparatos e ornamentos metafóricos, os dois lugares comunicam-se com os cidadãos por falas metonímicas: no alto de suas torres há um relógio e, se o relógio ferroviário assinala o tempo da produção capitalista, o da igreja lembra ao ocioso que o melhor para o espírito é sacudir a preguiça capital e entregar-se ao negócio. O negócio é que a preguiça não acumula capital. Toda antítese camufla muito bem as identidades!A polarização estação ferroviária/igreja São Domingos repete-se no contraditório Praça da República/Praça 9 de Julho-Padre Albino. A República, enquanto fato de História, corresponde ao momento político em que a coroa monárquica, corroída por ferrugem, pôs de lado o discurso monomaníaco dos luíses para dar lugar à desconexa algaravia popular.A praça é do povo e o bom cristão ouve e se cala.
Como escreveu Paul Virillio, a estação da estrada de ferro, como a muralha e a ponte levadiça da Idade Média, era a porta de entrada ou de saída das cidades. Quem estivesse na gare, assistia ao embarque ou desembarque do passageiro, a roupa por ele usada, o volume transportado ou quem o acompanhava. Naqueles dias da Primeira guerra, as velhas estações assistiram ao embarque da moçada romântica disposta a matar ou morrer: iam para lá o pároco, o cachorro, o bêbado, a noiva, papai e mamãe. É doce morrer no mar? Em Brest, na França, as trincheiras estavam infestadas de rato. Hoje, a velha porta rodoviária foi trocada pelos grandes aeroportos. Quem chegou? Quem saiu? O espião estará entre nós? Passamos do olho vigilante do ferroviário para o olho eletrônico da câmera digital. Ao queimar lenha ou óleo diesel, o trem – poderoso carro de bois – transportava para o porto de Santos café, suor, esperança, o português estropiado do imigrante, enquanto a cidade escalava a vertente ascendente ou despencava pela descendente, para poder abrigar maior número de almas entregues à febre da vida econômica. Abatiam-se a peroba ou a embuia para se construir a mesa, a cadeira,a cuna do bebê, a cumieira da casa, o caixão funerário: a cultura sobrepunha-se à Natureza. Onde houver Natureza, aí haverá matéria-prima. Cidade, portanto.

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A Praça 9 de Julho oferece-se como museu em que se abrigam capacetes e fuzis que não deram certo, porque se recortavam pelo modelo do caipira picador de fumo, quer dizer, onde Getúlio falava em aço ou petróleo, o 32 nos lembrava da casinha de sapé e o porquinho no terreiro. Caa-tan-du-ba: no festim do churrasco, o berro da vaca não será lembrado nem o som do couro curtido ao sol que repercute no nome com que os caioás nos batizaram: caa, tan, du, ba.
[A partir do momento em que os relógios da EFA foram desativados ou levados para Não-se-sabe-onde, a economia local começou a murchar./A outra imagem mostra como a Praça da República congregava o povo, numa época em que a televisão não injetava em nosso imaginário cerveja e bobagem.A terceira imagem, raríssima, é a da província em 1930, quando o espectro de Getúlio assustou os catanduvenses cujos filhos podiam freqüentar o Lyceo Rio Branco e comer com garfo e faca, porque o resto era a ninguénzada.]

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