O lugar da tragédia

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Luiz Roberto Benatti

 

Ainda que mutiladas e moradoras de lata de lixo,sem pernas e braços, as criaturas de Samuel Beckett continuam a sofrer. O sofrimento prolonga-se como sofrimento. É esse o sentido da palavra tragédia, de tal modo consistente, que os helenos puderam estabelecer ponte com os elisabetanos: Sófocles rebrotou em Shakespeare. O lugar da tragédia é a metáfora que se disfarça em vida e destino: Édipo não pôde escolher entre o auto-sacrifício e o parricídio. A morte do pai figura num texto que não pode ser rasurado ou alterado. O teatrólogo Manoel Carlos perdeu mulher e três filhos. Se é verdade que  suas personagens acidentam-se com gravidade ou morrem, e isso implica em que tais microdestinos foram traçados pelo dramaturgo que não concedeu  às criaturas de papel  o direito de escapar, verdadeiro será dizer também que a costura do dia-a-dia não nos deixa alterar para melhor  o  capítulo seguinte. Fatalidade não é vocábulo latino, mas árabe, e, se algo é fatal, tem de se cumprir, ainda que a dor esmague nosso coração.  Meu pesar ao teatrólogo.

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