Os piores anos de nossas vidas, IV: 1973

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Luiz Roberto Benatti

 

 

Em 1973, uma moça muito triste nascida em São João da Boa Vista, Orides Fontela chamada, publicou um livro de poemas com o título de  Helianto. Helianto é o nome técnico do girassol, também cultuado por Lindolf Bell naqueles dias. Ambos morreram cedo. Bell escrevia um poema à moda de Yevtuckenko, Orides era concisa a um grau quase que irrespirável. 1973 foi o quarto ano da ditadura sob Médici, anos em que o aparelho de Estado instrumentalizou-se para exercer  o controle da movimentação dos indivíduos, a censura, prisão, tortura e morte.Um ano orwelliano. Pense e cale-se para sempre. Andávamos na ponta dos pés, de olho no dedo duro.Fui trabalhar como revisor no jornal O Estado de São Paulo, no belíssimo edifício do Hotel Jaraguá da Rua Major Quedinho. Entre a sala de revisão e o café, por uma vidraça, avistávamos o jipe que conduzia o capitão-censor. Dois cabos  armados permaneciam vigilantes ao redor do veículo o dia todo, na Rua Martins Fontes.  Orides escreveu: “Tudo/será difícil de dizer/a palavra real/nunca é suave//Tudo será duro/luz  impiedosa/excessiva vivência/consciência demais do ser/toda palavra é crueldade”. As antenas de Orides captavam os gritos lancinantes dos porões e a promessa de vida econômica alardeada pelo governo indesejado/reverenciado. Os torturadores e seus assistentes eram nervosos, cujas sessões eles levavam a cabo conforme as lições aprendidas nos Estados Unidos.A pátria da estátua da liberdade exportava a tortura made by Hitler.  O censor do Estadão só não decepava os dedos delicados, mas a preciosa informação de que, no dia 29 de setembro de 1973, cinquenta brasileiros tinham sido levados para o Estádio nacional de Santiago e, de lá, para o Rio Mapocho, ficou impressa  nas linhas de chumbo da linotipo. O Brasil forneceu idéias e tutano para as ditaduras latino-americanas. A ditadura militar, consciência pesada,  tudo fez para continuar acreditando que Jango Goulart era de fato ameaça suprema, ao assinar, no Rio de Janeiro, no dia 13 de março de 1964, decreto que, em nome dos interesses nacionais, desapropriava terras rurais da federação que ladeavam eixos rodoviários e ferroviários em favor da reforma agrária; ou então que desapropriava ações de companhias de refino de petróleo (santa ironia!), ou então, por fim, que tabelava escorchantes aluguéis de imóveis. O Brasil foi, é e será ainda por muito tempo o país dos lambisgóias.

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