Demolição & barbárie

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Luiz Roberto Benatti

 

No dia 26 de janeiro de 2006, Affonso Macchione assinou o decreto 4696 destinado à constituição de comissão inventariante do acervo do Museu histórico e pedagógico “governador Pedro de Toledo”. Os inventariantes deveriam dar-se conta da presença material de documentos, móveis, fotografias, armas, moedas, ao compará-los com os registros dos 4 livros-tombo em que se arrolou, pelo IPHAN/Museu paulista, o acervo constituinte do museu, e que nos chegou por ato de partilha do governo do Estado com outras cidades paulistas.Éramos cinco inventariantes: Daniela Oliani Melotto Silva, Darcy Aparecida Meinischmiedt, Luiz Roberto Benatti, Roberto Rodrigues Martins e Odair Rizzo, aos quais competia constatar tanto a presença quanto a ausência de objetos. No remate do trabalho, a coordedora da cultura, Lígia Torchetti Ferreira, ao levar em conta o valor do objeto faltante, deveria comunicar ao IPHAN/Museu paulista detalhes das ocorrências. Para isso, a comissão inventariante lavraria termo conclusivo. O link www.unisantos.br/pos/revistapatrimonio comunicou aos interessados a importância do inventário como etapa garantidora da preservação do patrimônio da cidade, e acrescentou que, dentre inúmeros objetos e documentos, havia filmes e fotos do Museu de imagem e som “Júlio João Trida”, o acervo generoso do Pedro de Toledo, além de 89 peças de animais e aves empalhados do Museu de história natural e 1500 LPs do Museu do disco. Como os bárbaros deram-me o bilhete azul, o inventário não chegou ao fim, ao contrário dos fuzis belgas do século XIX que, no momento, enfeitam a sala de armas dum sorridente colecionador. Árduo trabalho para Sherlock Holmes e o inspetor Maigret será localizar o que por ora acha-se perdido ou que tenha sido destruído, incinerado, surrupiado. Holmes, no entanto, sabe que hercúlea será a tarefa para desvendar-se o mistério do desaparecimento dos ditos museus, já que, de tudo o que tínhamos, nada restou se não pífia inscrição no hall de entrada do prédio da Avenida São Domingos, 870: “Museu municipal”.  Assim mesmo, acredite, sem nome. [Nota: Em 2005, quando me iniciei no trato dos museus com a Darcy, tínhamos 6 museus,  dependentes de ajustes para assegurá-los como instituições de preservação da memória,  de fato e de direito, enquanto que a vizinha Tabapuã não tinha nenhum. De lá para cá, com a hecatombe macchiônica caída sobre a cultura local, fomos do pouco para coisa alguma. Caso a cidade reeleja a inefável criatura, mudo-me de vez para Santo Antônio dos Tomates Pelados. Para o distinto Afonso Macchione Cultura é como perfume comprado no Shopping popular, porque seu valor real não pode ser convertido em papel moeda européia ou norte-americana. Estranho que seu fã clube não se dê conta disso nem queira conferir o pó e a caliça do que nos restou.]

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