RUBINATO E O CIENTISTA

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Sérgio Roxo da Fonseca

Dois famosos sambistas cantaram em prosa e verso o antigo ambiente da Avenida São João, bem antes do poeta Caetano Veloso. Todos os três encontraram ali a porta do sucesso.

O cientista chamava-se Paulo Vanzolini, médico e cientista, estudou em Harvard, antes de tornar-se um dos famosos especialistas em cobras e lagartos. Foi um dos mestres do samba paulista, melhor dizendo, do samba brasileiro.

João Rubinato, filho de família italiana de pouco recursos, trabalhou até mesmo no calcanhar do sapo. Morava nas proximidades do Edifício do Fórum de São Paulo. Fez samba movido por uma sensibilidade poética que o converteu em ícone da música paulista, melhor dizendo, da música brasileira. Rubinato foi mais conhecido como Adoniran Barbosa.

Em Roma Agostinho dos Santos ouviu uma apresentação do “Trem das Onze”, quando o cantor comunicou que se tratava de música brasileira composta por um tal de João Rubinato. Agostinho comprou a briga dizendo: Que Rubinato, mané Rubinato? A música é do Adoniran. Agostinho e o povo brasileiro não sabiam que João Rubinato era o nome recebido por Adoniran na pia batismal.

Vanzolini destacou-se especialmente pela autoria de dois sambas.   “Ronda” e “Volta por Cima”. O primeiro cantado por uma mulher, o segundo por um homem e que narram suas frustações amorosas.

Em “Ronda”, a mulher caminha pela cidade atrás do seu companheiro que vive na boemia rolando dadinho e jogando bilhar. A voz dela é mansa mas está decidida a protagonizar uma cena de sangue na Avenida São João. Em “Volta por Cima”, o cientista Vanzolini proclama que é necessário reconhecer a queda, sacudir a poeira, para finalmente dar a volta por cima.

João Rubinato, o Adoniran, navega em todas as águas, desde o centro de São Paulo, passando pelo Brás até atingir Jaçanã. Amou a distraída Iracema, que foi atropelada, ao atravessar a Avenida São João na contramão, o que o impediu de se casar com ela que agora vive pertinho do céu. Para afogar a mágoa, certo dia foi para o Brás para um samba convidado pelo Ernesto. O samba, conforme se sabe, não houve, razão pela qual delicadamente pediu que de outra vez melhor seria deixar um recado na porta. Com certeza estava acompanhado por Mato Grosso e o Joca que moravam então com ele na saudosa maloca.

Mas ,certamente, o seu lirismo ultrapassa os limites quando esclarece à namorada que não pode ficar mais nem um minuto com ela, tem de ir no trem das onze, pois mora em Jaçanã, onde sua mãe não dorme enquanto ele não chegar. É o seu filho único. Se perder esse trem, “que parte agora as onze horas, só amanhã de manhã”.

Adoniran e Vanzolini, falando com palavras simples, documentaram o sentimento do povo paulista. Ou melhor dizendo, do povo brasileiro.

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