Cerveja

001

Charles Bukovski

 

 

 

não sei quantas garrafas de cerveja

consumi enquanto esperava a vida

melhorar

não sei quanto vinho e uísque

e cerveja

principalmente cerveja

consumi depois

de brigar com mulheres –

esperando que o telefone tocasse

esperando  o som dos sapatos

e o telefone tocar

esperando o som dos sapatos

e o telefone nunca toca

até bem tarde

e os sons dos sapatos não chegam jamais

até bem tarde

quando o estômago salta para fora

da boca

elas chegam viçosas como flores de Primavera:

“que porcaria você andou fazendo com você mesmo?

faz 3 dias que não damos uns amassos!”

a mulher é sólida

vive sete vezes e meia mais que

o homem e bebe pouca cerveja

porque sabe que isso é ruim para a sua aparência

enquanto ficamos loucos

elas saem por aí

para dançar e saracotear

com peões chifrudos

Calma, moçada, há

sacos e sacos de garrafas vazias de cerveja

e quando você gruda um deles

a garrafa cai lá no fundo molhado

do papel do saco

deslizando

tinindo

cuspindo uma baba cinzenta

e cerveja choca

ou então os sacos despencam às 4 da madrugada

fazendo o único barulho do mundo

cerveja

rios e oceanos de cerveja

o rádio tocando canções de amor

enquanto o telefone continua mudo

e as paredes

ficam girando

sobem e descem

e cerveja é tudo o que resta no mundo

[Na imagem, o poeta com a mulher Linda Lee]

 

 

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