Tempus fugit

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Luiz Roberto Benatti

 A percepção de que o tempo foge, flui ou voa está e não está baseada no chão do concreto. Virgílio a viu dum jeito, enquanto que nós, há muito tempo, a vemos de outro. Embora o tempo seja fenomênico, algo, portanto, imponderável, nós atestamos sua realidade pelo relógio, quer dizer, uma seqüência de segundos e minutos que vão-se empurrando um ao outro enquanto o cavalo ou o automóvel avançam pela estrada. A alteração na posição dos ponteiros, para nós, registra com aeerto o tempo gasto entre local de saída e chegada. No dia-a-dia, não pomos em questão essa crença, tanto é verdade que ela foi sistematizada por Taylor & Faiol no controle da linha de produção, a fim de se estabelecer a paga. Ora, como o operário assiste à passagem dos dias, e nesse tempo os cabelos embranquecem, o nariz fica adunco, os olhos vêem o cristalino embaçar-se, não duvidamos em afirmar que a notação do relógio regula também a decadência de nossos corpos. Aqui não precisamos como São Tomé tocar com o indicador a ferida aberta de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque o espelho nos revelou que o rosado de nossos rostos desapareceu substituído pela palidez. A passagem do tempo nos aproxima da morte e a dissolução da carne. Nessa questão, São Mateus foi mais longe e acabou por presentear os exegetas da Bíblia com a ferramenta da podridão da carne, parte significativa da liturgia cristã: a carne perece e, se tivermos sido perdoados de nossos pecados, ascenderemos aos céus onde seremos galardoados com a  eternidade, quer dizer, o sem-tempo ou o tempo einsteiniano, ainda que Einstein estivesse pensando em equações, sistemas cósmicos, espaços infinitos. Se nós propusermos ao adolescente ou ao adulto numa aula de Filosofia que, de acordo com Kant, o tempo bem como o espaço não existem, ainda que sejam apriorísticos, quer dizer, sem eles não saberíamos como construir o cenário à nossa volta, seremos vistos como idiotas, porque ninguém abrirá mão do relógio como garantidor da passagem do tempo nem que nesse escoamento verifique-se a decadência dos corpos. No entanto, os corpos perecerão ainda que arrebentemos todos os relógios existentes no mundo. Quanto ao apodrecimento da carne, entendo eu, humilde pecador nietzschiano, que não deveríamos ensinar nas aulas de catecismo às crianças que nossos corpos vão apodrecer como os peixes de São Mateus e cheirar mal, mas, se possível, aproximá-las de Charles Darwin. Um pouco mais ocupadas com a imanência nossas crianças seriam muito mais alegres e inteligentes.

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