CALENDÁRIO

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Sérgio Roxo da Fonseca

 

Em quase todo mundo usa-se o calendário revelado pelos romanos. Israel, por exemplo, vale-se de outra medida para medir a passagem dos anos, haja vista o extraordinário tempo de sobrevida dos homens revelados pelo Antigo Testamento.

Os romanos, povo prático que se valia das visões gregas, criaram um calendário com dez meses. Os nomes revelam o seu número. Dezembro é o décimo enquanto novembro é o nono e outubro o oitavo.

Mas lá como cá a política era tão forte que o passado, muitas vezes, foi reescrito, quase sempre pelos vencedores, dentre os quais  dois que se destacaram por   suas vitórias –  Júlio César e Augusto.

Houve assim necessidade de ser refeito o calendário para eternizar os seus nomes. Criaram dois meses. Um para Júlio César que passou a se chamar julho para nós. Outro para Augusto que passou a se chamar agosto nós. Desarranjou-se a numeração. Pouco importa, diriam os senadores romanos.

Assim dezembro que era o décimo, como revela seu nome, passou a ser o duodécimo. Novembro e outubro que eram o nono e o oitavo passaram a ocupar outros lugares, ou seja, o décimo primeiro e o décimo respectivamente.

Na minha infância, as casas em Ribeirão Preto eram numeradas pela sequência aritmética. Minha família residia na Rua Visconde do Inhaúma, 13, na Praça Tiradentes.  As casas novas eram mantidas sob o número antigo, seguido da letra A ou B e assim seguidamente. Por exemplo, Rua Visconde do Inhaúma, 168 A ou B.

Logo depois do final da Segunda Grande Guerra adotou-se a numeração métrica, portanto, o número 13 de nossa casa foi substituído por Visconde do Inhaúma, 168, ou seja, uma casa localizada a cento e sessenta oito metros da Francisco Junqueira. Foram abolidos os números repetidos distinguidos por letras do alfabeto e permitiu-se ao interessado ter uma visão quilométrica das ruas. Hoje moro a setecentos e setenta metros da beira do rio. Prático. Muito mais prático.

No entanto, o grande jurista espanhol Jesus Gonzalez Peres escreveu que essas intervenções não devem ser adotadas, mantidos os antigos critérios, em respeito à memória das pessoas mais velhas.

Paris é um exemplo de respeito ao passado. Próximo do bairro universitário existe até hoje a Rua do Sabot. Em francês, “sabot” significa “tamanco” que era o único sapato usado pelos trabalhadores no início da Revolução Industrial. Afirma-se que os tamancos eram também usados para impor reivindicações salarias, numa época em que não existia Direito do Trabalho. O uso do tamanco como instrumento de reclamações passou a ser conhecido como “sabotagem”.

Voltando à minha infância, a Rua do Comércio mudou de nome. Hoje é a Rua Mariana Junqueira, aplicando-se uma política diversa daquela preconizada por Peres. Suponho que o nome dos meses não seja substituído até o desgaste final de minha memória.

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