A (in)utilidade da Poesia

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Luiz Roberto Benatti

 

A Poesia é absolutamente necessária, ainda que não saibamos dizer em duas ou três palavras a razão disso.Ela incomoda o ditador que, às duas da manhã, suado, acorda em seu leito apavorado com a idéia de que travesseiro e lençol  estejam empapados de sangue e gritos.  O gato não lê Poesia mas, enrodilhado nos fios do poema, ele dá um pulo para trás para escapar ao predador que não tolera Eliot ou Homero. A vida não é feita de palavras mas as palavras do poema tornam a vida menos intolerante e suportável. Pode ser que o poema originalmente escrito em coreano,e lido noutra Língua, perca parte do cheiro de terra molhada apreendida pela metáfora, todavia, na releitura da nova Língua, o vento e a chuva nos devolverão  os aromas da natureza. Corpos esfacelados pela bomba espalham-se pelas estrofes do poema, mas a Poesia não pensou jamais em  matar. A Poesia não incinera livros nem reduz a pó monumentos que nos garantem que a vida anterior foi empurrada para a frente tanto pelo oleiro quanto pelo artista. A Poesia não cospe no passante nem esfaqueia a adúltera. A Poesia ama o deserto mas não pensa em reduzir a Cultura a pó. Quando Bei Dão escreve “a sombra bebe a água potável/ao imitar o riso/o modo como a luz se fecha/inaugura a manhã”, num primeiro momento talvez não saibamos dizer do que se trata, todavia a releitura irá revelar a identidade entre sombra/água/riso e  alvorada, e isso nos distinguirá dum toco de árvore devorado por larvas.

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