Silhuetas

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Luiz Roberto Benatti

 Quando eu era menino e morava na Praça da República, ao lado do cinema, uma vez por ano aparecia um hábil senhor que, tesoura à mão, com a rapidez do prestidigitador, recortava em cartolina preta contra fundo branco, a silhueta do interessado. Estávamos no governo Vargas que não sofreu impichamento, mas se matou no Palácio do Cadete. Os tempos eram outros e aquilo que não fosse  seu também do Abreu não seria. Naqueles dias, além do Estadão, líamos os Diários de Chateaubriand, um histrião de linha. Naqueles dias, o Ministério da Educação e Cultura editava livros que se lêem até hoje e homens ricos como Ciccillo Matarazzo construíram o MASP. Quando o projeto de educação de Vargas foi demolido pela ditadura de 64, a incultura devorou a gramínea da Cultura. Nos anos 80s, o PT foi gestado entre a Rua Maria Antônia/USP, a PUC e São Bernardo por criaturas de outros tempos, lidas, escoladas no dia-a-dia dos confrontos com a polícia. Faltava o homem da massa, arrancado do boteco para o palanque – o famoso Luiz Inácio que, bem cedo, aprendeu a negociar com o patrão e o operário, de tal modo que 15% viravam 7 e meio e o restante sobrava para o futuro presidente da República. Lula enganou trouxas e espertos. O reinado chegou ao fim, porque todos os grandes reinados enterram-se a si próprios. Vamos recomeçar mais uma vez mas sem o fade-out da silhueta.

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