Zé Alfredo Jorge e o Túnel de Eupalinos

004

Luiz Roberto Benatti

 Zé Alfredo convidou os velhinhos da cidade, com mais de 65 anos,  a sair por aí rumo a Santiago de Compostela para fugir à peste da dengue. Tema para um filme cujo roteiro o Zé redigiria com capricho. Nas cenas iniciais, estandarte contra o prefeito Vinholli à mão, o Zé, cujas 65 velinhas já se apagaram há algum tempo, puxaria a fila interminável conforme o levantamento estatístico do IBGE: CTV é uma cidade de idosos rumo à senilidade. Desde nossa infância comum na velha Praça da República, o Zé é cultor de idéias mirabolantes. Há nele uma criatura muito maior do que ele, armada dum daqueles mosquetões belgas do final do século XIX surripiados de nosso acervo do “Pedro de Toledo”, por cuja localização o Zé passou batido. O Zé tem olhar atento, porém  unidirecional, razão por que ele, como ex-prefeito, jamais teria mandado construir o Túnel de Eupalinos, no século VI a.C., na ilha de Samos, na Grécia, na época controlada pelo tirano Policrates.O ditador encomendou a construção ao engenheiro Eupalinos de Mégara: construção subterrânea sob o Monte Kastro, cuja utilidade seria conduzir água fresca até Pitagoreion. Os cálculos de perfuração feitos por Eupalinos foram irreparáveis: ele mandou que se perfurasse o túnel, ao mesmo tempo, dum lado e outro, até próximo da metade, ponto em que  ambos os túneis derivaram à esquerda e à direita, de tal modo que fosse como fosse teriam de se  encontrar, encontro que, de fato, se deu. Essa derivação, claro, não tem a mais mínima conotação política, mas mostra que tanto na vida quanto nas fantasias o melhor será dominar os truques que nos levariam  às realizações  inteligentes. A dengue exige atos continuados de inteligência, porém até certo ponto limitados pela sistemática destruição da Natureza.Outra questão é a remoção dos trilhos da EFA para Algures ou Nenhures. Como o Zé anda à cata duma flâmula igual à de Brancaleone, recomendaria que ele estudasse por 45 segundos a topografia da cidade feita de talvegues, quer dizer, colina acima, colina abaixo, córrego, e refletisse sobre a diferença de nível  entre os terrenos do rio, a Washington Luís, o rio e a estrada para Barretos, lembrado também de que Santa Adélia e Pindorama nos precedem no traçado da EFA e que Catiguá, Cedral e Schmidt vêm a seguir. Que o Zé leve em conta também que o leito ferroviário não poderá ser desmontado como brinquedo de criança, posto nas costas e transportado  para a Conchinchina. Eupalinos, onde estás que não me respondes?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s