Afonso Macchione Neto: o ousado rapaz do trapézio voador

 

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Luiz Roberto Benatti

 

Em 1970, AMN foi meu aluno de Língua portuguesa e Literatura no velho Barão. Naqueles dias, a escola ensaiou novos vôos na direção das elevadas montanhas das décadas dos 50s e 60s. Nas aulas de gramática, tentamos recuperar a integridade tanto da fonética quanto da forma do vocábulo, cujos contornos começavam a estropiar-se, e, em Literatura, trocamos Til do Zé de Alencar por livros procedentes de outras geografias com o propósito de estimular o gosto pela leitura. Sem Literatura não haverá conhecimento de si mesmo nem do mundo circundante. Levamos as classes para o Cine Tropical, montamos parafernália de som para intervir de modo suave no acompanhamento da fita e vimos, por exemplo, tão logo o filme entrou no Brasil, Blow up do italiano Antonioni. Afonso afirmou em público que aprendeu a ver cinema comigo. Tanto melhor, pensei eu. O tempo disparou no relógio, amarrei os panos, fui viver em Sampa por quase 20 anos, voltei. Nos primeiros dias, entre a Praça da República e a Caixa federal, fiquei de pé na ilha à espera da passagem dos carros e fui contando um, dois, três veículos silcados com a marca Macchione. E pensei com os meus botões: meu ex-aluno  voa lá no alto, num trapézio, e eu continuo aqui embaixo, com minhas calças largas e nariz vermelho. Fui ao posto de gasolina do pai para abastecer: o velho veio na minha direção: Uê, paisano, como está? Bene, bene, respondi e il suo figlio, Afonso, è il re della cità? O velho Giácomo riu-se com bom humor. Montei uma livraria e o antigo aluno, de maneira simpática, convidou-me para bater um bom papo com Amália Marangoni na televisão. Depois de alguns atropelos e atrapalhos, Afonso foi para a prefeitura, por cuja portinhola lateral eu entrei: com os amigos, inventamos a Estação cultura, onde, no salão de exposições da Rua Rio de Janeiro, comecei a contar a história de CTV por décadas, duas a duas. As duas primeiras mostras foram vistas por 26 mil visitantes. CTV não vira nem tornou a ver coisas com aquele formato e qualidade. Na primeira mostra, cortada a fita, dei a palavra ao prefeito que, emocionado, apontou para um canto e disse aos visitantes: Ali, nos tempos em que meu pai foi dono do bar da antiga rodoviária, engraxei muitos sapatos. Ter dito isso, foi na vida de AMN, no meu modo de entender, um instante freudiano no qual o reprimido sobe à consciência para dizer que somos iguais aos demais e que o progresso material também poderá ser um bom caminho na vida, se não fizermos disso a roda pesada dum trator capaz de esmagar pernas e expectativas. Nos dias iniciais de sua administração, as redes sociais que tudo digerem com casca ou sem casca, fizeram que circulasse um blogue com o título de Eu odeio Afonso Macchione, indicativo de que o cidadão médio odeia ou ama com igual desrazão. Com o tempo e as pracinhas, Afonso esmerou-se nos saltos trapezoidais e arrancou da classe média satisfeita suspiros e aplausos. A partir disso, ele fez o que lhe deu na telha e o que lhe deu na telha foi o resultado dum vírus contraído não se sabe onde nem quando, mas que Erich Fromm chamou de oscilação entre a retenção e o esbanjamento, isto é, se a grana não é minha não será de mais ninguém. Em resumo: caso o rapaz volte para o trapézio, advirto-lhe que deverá passar muito pó de arroz nas mãos suadas para não despencar lá de cima e quebrar o pescoço. Afonso economiza o que é seu, de direito, e torra o dinheiro público sem dó nem piedade. A dívida que ele deixou de herança para as crianças de Catanduva só poderá ser paga quando esses meninos, bem crescidos, chegarem à faculdade.

 

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