Montanha

001

Clifton Gachagua/Benatti

 

no dia em que iniciei a escalada

a dor grudada às costas era um saco de bolinhas de gude

a respiração lembrava nuvens pendentes nos picos baixos duma montanha

no dia em que parti

sem levar nada, coisa alguma na cama, versão alguma de mim mesmo

apenas minha voz, através da noite, a voz de pesadelos  dum cantor

(minha voz de natureza morta, mortalha verde e profundo azul ultramar, tigela de maçãs e tangerinas na mesa)

no dia em que eu parti

a montanha à frente estava bem alta, deus duvidoso de neblina e nevoeiro

não tenho voz para dizer a que altura meus dedos deverão erguer-se até o lábio superior dum amante

e  colher a respiração da elevada montanha – dentes brancos por trás, boné de névoa, primaveras incontáveis e eu como enzimas no espeto

versão de mim mesmo adormecido num membro move-se no sono

e tudo torna-se lúcido

 

 

 

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