Nos tempos em que o cinema, embora imanente, alimentava-se de transcendência

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Luiz Roberto Benatti

 Em 1937 ou 38, o escritor italiano Curzio Malaparte encomendou a Alberto Libera o projeto duma casa fantástica que se ergueu sobre o Golfo de Salerno. Era muito custoso chegar à residência de transcendental beleza. Libera, como inúmeros outros talentosos arquitetos meridionais, foi seqüestrado por Mussolini a fim de dar ao fascismo cenário e imponência. Para entender as tramas desse seqüestro teríamos de voltar a Getúlio Vargas. As ditaduras afligem-se diante da idéia dum destino passageiro, razão por que se assentam sobre a busca da permanência. Foi nessa casa que Jean-Luc Godard rodou Le mépris/O desprezo, para cujo roteiro ele se serviu do livro homônimo de Alberto Moravia, lançado em 1963. A propósito de Moravia, a expressão que por aí se espalhou de que uma coisa é uma coisa foi inventada por ele no livro Una cosa è uma cosa. Em linhas gerais, o roteiro do filme fala de Paul Javal/Michel Piccoli casado com Brigitte Bardot/Camille que se deslocam para a casa de Malaparte onde se dá o deslinde: Javal joga Camille nos braços do produtor, e isso avoluma o desprezo que ela nutre pelo marido. Produtor e roteirista associaram-se na elaboração dum filme inspirado na Odisséia de Homero. Fato de primeira grandeza é que o grande cineasta alemão Fritz Lang atua na fita de Godard. Brigitte, na época, era atriz cortejada e admirada no mundo todo, cuja presença, nua em pêlo, no filme, garantiu-lhe  a mais elevada bilheteria de todos os filmes de Godard.

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