ORDEM CIVILIZACIONAL E VIOLÊNCIA

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As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram muito além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Os lusíadas – Luís de Camões

 

José Roberto Salattine

 

Os europeus emularam os árabes ao requisitar da África a mão de obra escrava.

Foi um erro. Mas não inventaram a escravidão  nem foram os precusores dessa desprezível prática. Somente, atenção!, mil anos depois é que a Europa embarcou nessas atrocidades, poupando seus nativos e colocando os negros para exercer a mão de obra pesada nas colônias que criaram na superfície da Terra. Por que essa prática não deu certo na Índia?

Já no século VII, Zanzibar constituía-se em entreposto de recrumento de mão de obra escrava para servir aos interesses do mundo islâmico. Por que   na civilização muçulmana não há o mestiço encontrado no Brasil e na América? Porque eram transformados em eunucos, logo não procriavam. E porque a África, tribalizada, foi permeável à oferta de mão de obra escrava? Porque os judeus, após quatrocentos anos, libertaram-se do jugo escravagista na civilização dos faraós?

A Língua inglesa tem um aspecto que, ao contrário da plasticidade e fluidez da Língua portuguesa, caracteriza-se pela precisão, praticidade e extrema capacidade de se autoprocriar na produção de verbos e expressões que se adaptam à modernidade e emprestam instrumentos de comunicação verbal que se espalham de modo difuso e irresistível por toda a cartografia terrestre. Assim, a palavra arm, por exemplo, ao mesmo tempo que significa braço, também faz referência às armas, remetendo a uma extensão de defesa ou  ataque.

Esse senso antropológico foi capturado na concepção da Segunda Emenda da Constituição Norte- Americana: “A well regulated militia, being necessary to the security of a free state, the right of the people to keep and bear arms, shall not be infringed”, cujo conteúdo, em tradução livre, remete ao povo americano, “à necessidade de constituir uma bem regulamentada milícia, para a segurança de um Estado Livre, ‘o direito de o povo de manter e portar armas, e que, tal direito, não será transgredido’”.

Ou seja, além de a Constituição daquele país garantir a posse e o porte de armas, assegura também  que tal direito não seja transgredido. Vê-se que a concepção de sociedade livre remete ao cidadão comum também o direito de fazer a sua defesa, caso necessite, com as próprias armas.

Sabe-se que na América há mais de 270 milhões de armas nas mãos do cidadão comum, como se sabe também que a taxa de homicídio naquele país é de 10,2 por 100 mil habitantes, com uma população que já ultrapassa os 300 milhões de habitantes, ou seja, 1/3  a mais do que a população do Brasil.

Quanto ao Brasil, um país com 200 milhões de habitantes, e um rigoroso controle sobre a posse e o porte de armas, criminalizando tal prática, a taxa de homicídio é de 21 por 100 mil habitantes, portanto, mais do que o dobro dos norte- americanos e, se considerarmos que a população é 1/3 menor, esse número sobe para, pelo menos, 27 homicídios por 100 mil habitantes.

Estando entre as civilizações, de raizes cristãs, mais bem sucedidas da história da humanidade, a América é alvo de ataques tanto exógenos, que vêm de fora, isto é, do esquema eurasiano – russo-chinês -, quanto o islâmico; o primeiro é geo-estratégico, com forte natureza econômico-militar, já o esquema islâmico, mais insidioso e, portanto, mais perigoso, tem natureza civilizacional, com pretensões de abarcar e capturar a civilização cristã suplantando-a; e os ataques endógenos, que brotam desde dentro, mas que, ao contrário dos outros dois, assentam-se sobre ódio histórico, negros e brancos e aqueles que atendem aos anseios globalistas dos metacapitalistas que, embora nascidos em solo americano, têm a pretensão de dominar o globo terrestre aplicando os recursos capitalistas, poderosamente irresistíveis, que transformam o mundo em décadas hoje, quando antes eram precisos séculos, talvez milênios.

O Homem, já dizia Nicolò Maquiavelli, nada tem de bondoso. Caso não atenda a uma poderosa Ordem Civilizacional, como é o caso do cristianismo e islamismo, e outros esquemas civilizacionais, fica abandonado à sua natureza feroz e assassina.

Mesmo assim, além disso, há a moldura histórica, como no caso do Brasil e da América, onde, em ambos os casos, há um elemento comum, colonizador, que abandonou o negro à própria sorte. Na América, embora o negro tenha se integrado mais, sofreu severa discriminação social, até ,pelo menos, meados da década de 1960. Entretanto, não há nenhum outro país no mundo em que o negro tem mais acesso aos bens materiais, à cultura, à riqueza e à própria expressão de sua cultura e poder do que na América.

O Brasil, que tinha um processo muito bem arquitetado pelo Império para a integração do negro, com a sequência do Ventre Livre, Lei dos  Sexagenários e, por fim, a catastrófica Lei Áurea, esta sim, abandonou os negros à própria sorte, em um país semitribal, sem infraestrutra de comércio, de indústria, de edução, enfim, abandonou o negro que  embrenhou-se pelas florestas e pelas periferias fétidas das grandes cidades, não lhe garantindo nenhuma condição de se integrar à sociedade e ao incipiente esquema de organização econômica do século XIX. Deu no que deu.

As estatíscas de ambos os países, Brasil e Estados Unidos, mostram, em comum, o negro como uma das maiores vítimas da violência, tanto ativa, quanto passiva, mas ainda não encontraram a chave para que a desconfiança e ódio histórico sejam superados. Trata-se de uma doença civilizacional sobre a qual os elementos de ordem Civilizacional ainda não chegaram.

 

 

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