Soneto de náilon balístico

001

Andrew Zawacki/Benatti

 

rajada FASFAS contra o salgueiro

é por isso que a árvore existe

esquiva-se no escuro e torra o ar

brilhante, antracite e artrítico

 

ramo de onda senoidal &

o que se acha ali

tenho sonhos & você encontra-se

neles

 

na hiperfocal distância das folhas

1050 denier de tecido duplo

mas alguma coisa vai sempre

descoser-se

 

– está nevando

– o que é isso?

 

[Nota: Num artigo intitulado “A costela de prata de Augusto dos Anjos”, Anatol Rosenfeld não apenas tirou o poeta do buraco em que o meteram – o pré-modernismo –  como ainda encontrou para ele um parceiro alemão de primeira linha – Gottfried Benn, cultores ambos duma poesia de necrotério e de palavreado pouco usual ao vocabulário parnasiano ou simbolista em que a poesia nacional continua entaliscada. Quanto a isso, temos de dizer que vocábulos gerados  tanto pela anatomofisiologia quanto pela mecânica devem ser apensos ao poema que se quer contemporâneo. Quase tudo é relativo: Zawacki usa antracite como poderia ter feito uso de hulha ou carvão mineral, assim como incorpora ao soneto termos como FAS ou denier para se referir às medidas de resistência do náilon aplicado à jaqueta do piloto do avião de bombardeio. Como vêem, nosso atraso não é só técnico mas literário.Carecemos dum novo Augusto dos Anjos!]

 

 

 

 

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