Como entreter a esposa cega na Síria conflagrada

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Luiz Roberto Benatti

 Você me pergunta se eu tenho medo da bomba, e eu lhe respondo que me aborreço  sempre que  ela desafina na hora do  assovio. Como minha esposa é cega de nascença, ela faz um pouco como os morcegos que só caminham certeiros para a tâmara  quando seus guinchos saem e retornam conforme o compasso. De outro modo, eles quebrarão as asas no muro. Você me pergunta também sobre o que eu penso do governo, e eu lhe respondo que de uns tempos para cá eles só ouvem os xingamentos do inimigo e, como o inimigo da quarta-feira não será o da sexta, o governante não tem localizado  depósitos suficientemente grandes para estocar as bombas. Dizem que uma bomba vale muito dinheiro, mas eu e minha família nunca mais vimos a cor duma nota colorida o bastante para comprarmos trigo e fazer quibe. Você certamente estará bastante curioso em saber o que é que eu cobri com esses lençóis brancos. Se eu lhe responder que desviei para cá uns velhos vagões ferroviários, você não acreditará em mim porque no terreno não se vêem os trilhos. Então, eu lhe respondo, com educação, que não importa saber o que há sob os lençóis. Aprendi com um primo que foi para a América que as instalações de Arte são bastante comunicativas, e foi o que eu fiz: uma instalação do desastre Sírio, prenúncio do começo do fim da grande civilização árabe. Como disponho de bastante tempo, invento narrativas mais ou menos alegres para a minha esposa cega.

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