O Hospital Pe. Albino ou a corrosão da memória arquitetônica em nome da busca desesperada por novos espaços

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Luiz Roberto Benatti

 

Quem tivesse visto Hiroxima e Nagasáqui no dia anterior ao do lançamento da bomba atômica e voltasse a percorrê-las nos dias seguintes não saberia de fato como situar-se, ou ter a certeza de que estaria ali, no local em que anteriormente   existiram. O esfacelamento do que antes estivera diante dos olhos deletou a anterioridade, destruição essa que conduziu à desmemória. Onde se encontram os belíssimos prédios do Cineteatro República ou da segunda versão do Banco do Brasil, na esquina da Praça da República com a Alagoas?O construtor responsável pela elaboração dos riscos do Colegião, República e Hospital Pe. Albino era um espanhol formidável, avô do engenheiro José Nélson Machado, filho de Carlos Machado, figura totalmente desconhecida das jovens gerações. CTV não tolera a memória dos lugares, tanto é verdade que nos dias que correm só cruzamos a cidade fechados no interior dum automóvel. Como nos filmes, a ilusão de que o carro caminha é dada por imagens  coladas no fundo do fotograma: o veículo está parada sobre trilhos, mas imbute nos olhos do espectador a idéia de movimento. Nós vivemos dentro dum automóvel cinematográfico. O Hospital Pe. Albino assenta-se sobre um platô, a rigor o primeiro ascendente na colina da Rua 13 de Maio, Rio São Domingos acima. Terreno sólido. O risco do edifício materializou-se como prédio imponente, de tal modo suspenso, que chamava a atenção do passante. Dos anos 30s para cá, mas de fato a partir dos anos 50s, iniciou-se um processo continuado de corrosão em nome da busca desesperada por novos espaços internos: os quatro cantos do terreno foram ocupados por novas construções, feias e pesadas que, aos poucos, esmagaram o edifício primitivo, até que dele não restasse mais nada. Esse realismo brutalista não levou em conta o que afirmou da arquitetura o italiano Aldo Rossi: “Entendo a arquitetura em sentido positivo, como criação inseparável da vida civil e da sociedade em que se manifesta: ela é por natureza coletiva.” [Imagens: em construção nos anos 30s; na década dos 50s, o prédio da maternidade bloqueia o canto à direita; em 2006, com o pavilhão infantil à esquerda, o edifício inicial havia sido deletado.]

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