Macbeth & Afonso Macchione, ou Como o gosto pelo poder muda o caráter

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Luiz Roberto Benatti

 

Releio a peça Macbeth de Shakespeare pelo menos duas vezes por ano, mas só nos últimos tempos é que me dei conta de que nossa cidade está embutida em quase todas as cenas e diálogos de suas personagens. Entendo também que Macbeth é a peça mais completa e vigorosa sobre a luta insana e fratricida pelo poder. Confesso, porém, que, caso  o leitor tencione  refletir sobre boa parte de suas ocorrências, que essa será tarefa bastante difícil. Uma de suas complicações, p.ex., é a mudança no estado de espírito de Macbeth: no início da peça, ele é um general respeitável, esposo devotado e servidor leal do rei; no final, essa tríade comportamental naufragou, derrotado que foi Macbeth pela doença do poder que lhe roeu carne e espírito. Quem passar os olhos pelas imagens do blogue passandoalimpo vai-se dar conta de que Afonso Macchione não esconde nem pretende esconder que seus cabelos encaneceram e que nele houve mudança gestual no uso do corpo em particular no momento de enunciação da fala e o uso das mãos. Ele quer nos convencer de que sua terceira investidura seria ato de salvação coletiva duma população ora submetida à sanha dum estrangeiro não qualificado como ele para nos conduzir à glória. Se eu estiver certo na análise, arriscaria dizer que para ele a volta ao poder tem significado religioso: ele se julga um predestinado. Para isso, tentaria ele reverter em parte a fantasia do grande obreiro para a  ação prática do administrador ocupado com programas sociais substanciosos, o grande buraco de seus 8 anos. Como o leitor pode estar deslembrado ou não saber, digo-lhe que a cidade tem 200 praças de diferentes formatos e tamanhos e que, em hipótese alguma, encontraremos recursos para mantê-las limpas e bem protegidas contra depredações. Ora, ele, como engenheiro, devia saber disso e, se nada fez para mudar a sanha edificadora de praças, foi porque a praça, independentemente de sua necessidade, foi objeto de ganho eleitoral ou senha para o retorno, mas também porque a necessidade real do cidadão remediado ou pobre não existe para ele. Dizem que ele é detentor de 25 empresas de porte: foi do berço ao túmulo – água mineral, cemitério, asfalto, lixo, emissora de rádio, farmácia. Empresário onímoda. Macchione quer ser visto como chefe duro, amedrontador, mandão, a cujos pés a cidade se ajoelhe para, de vez em quando, erguer-se e dizer em voz alta: Salve, Macchione, os que vão morrer te saúdam!

 

 

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