Paris era uma festa

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Luiz Roberto Benatti

Em 1878, o engenheiro Henrique Dumont, personificação de Senhor da Guerra tangido de Minas Gerais pela grande seca, arrebanhou família numerosa, quase 100 escravos e 300 contos de réis. Molhou o dedo indicador na ponta da língua umedecida, fez rápido a leitura da direção do vento Oeste, montou a cavalo e enfrentou 3 penosos dias de viagem de Casa Branca a Ribeirão Preto, onde edificaria o feudo. Buscava as promissoras terras roxas de SP [Como escreveu Edgard Carone: “Nascem fazendas com certas características de empresa capitalista e com extraordinárias possibilidades de expansão. Abrem-se, agora, as grandes fazendas para além das serras da Mantiqueira e do Mar, no planalto interior. Abundam as manchas de terra roxa, resultado da decomposição de rochas basálticas de origem vulcânica, solo rico e próprio para o café; terreno levemente ondulado, clima quente, geadas poucas – o que permite a formação de grandes propriedades e plantação de milhares de pés de café num só corpo. Isto não era possível nas outras regiões”.]. Sob seu comando, homens e mulheres derrubaram a mata, sem dó nem piedade, e tudo queimaram, para arrotear o solo e plantar a rubiácea trazida por Palheta: do Saara para as Guianas, das Guianas para Ribeirão Preto, de Ribeirão Preto para Santa Adélia, de Santa Adélia para os altos do São Francisco em CTV. [José Sartori, ex-capataz, depois de fazer o pé-de-meia, saiu dos Dumont e veio plantar 40.000 pés de café na Fazenda S. Francisco, cujas colheitas fortaleceram S. Domingos do Cerradinho. Em 1910, Sartori vendeu a propriedade aos irmãos Lunardelli. Em 23 de novembro desse ano, comandados por João Cândido, marinheiros dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, com o apoio dos vasos de guerra Barroso e Bahia, exigiram o fim do regime da chibata adotado pela Marinha. Os amotinados fuzilaram o comandante Baptista das Neves e ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro. Cheio de pavor e às pressas, o Congresso Nacional votou lei de anistia aos marinheiros rebelados e prometeu pôr fim aos terríveis castigos corporais. Reprisamos no RJ o episódio russo do encouraçado Potêmkin.] À terra Dumont acrescentou terra e mais terra, até 1911, quando se deu conta de que o reino estendia-se por 14 mil alqueires e 1 milhão e 500 mil cafeeiros. Dumont colheu 125.000 sacos e, em valores brutos, faturou 4 milhões de contos de réis. Seu filho Alberto não ganhara aposta da sena (sena não havia), mas foi viver como um príncipe às margens do Rio Sena, em Paris. O café pagou a conta dos balões, do XIV-bis e de La Boîte, em Deauville, refúgio de miliardários. A casa era uma versão francesa de A Encantada de Petrópolis. Nela Alberto, vivia com criado alemão.
Correu boato de que Dumont espionava para a Alemanha, acusação que o deixou aborrecido. Como era o cenário do grão-mogol Henrique Dumont? Anote: 420 casas de colonos, armazéns, farmácia, escola, casa de máquinas, olaria, máquinas de benefício de café, serraria, pátios ladrilhados, despolpador, locomotivas, tulhas. Cascavel, Sertãozinho, Palmital, Boa Vista, Santa Albertina, Barreiros, Cornélia, Algodoal, Franco, Sobrado – o Império Dumont espalhava-se pelo mapa com a velocidade duma Baldwin enfumaçada e trepidante. Pareceu-lhe muito? Era bastante. Comparado, no entanto, com o grande feudo do coronel Schmidt, o “rei do café”, de Ribeirão Preto, era pouco. Schmidt tinha 33 fazendas, quase 8 milhões de pés de café, 8000 colonos distribuídos por 1026 casas e colhia 250 mil sacas anuais nos bons anos. Como a desgraça vem a cavalo, Henrique caiu dum animal e ficou paralítico. O império começou a esboroar-se. Como pagar 400 mil libras esterlinas emprestadas dos ingleses? Dumont & o Brasil exportaram, com o trabalho de negros e brancos europeus, capitais para os ingleses e a Grã-Bretanha financiou Henrique, em Ribeirão Preto e Santa Adélia, bem como o filho, em Paris. O vigor meridional de José Sartori alimentou-lhe a família e a nós todos concedeu fôlego para chegar aos 90 anos. De viés socialista e generoso de coração, Alberto dividiu com operários franceses empobrecidos o que havia recebido com os inventos premiados. Um dia, porém, a conta teve de ser paga.

[Imagens: neste prédio, residiu Alberto Santos Dumont, em Paris. Claro que ele tinha outras casas, bem como seu pai, Henrique, na França; a pedra da segunda imagem é um basalto; de origem vulcânica: sem ele não haveria café e, sem o café, CTV teria sido outra, muito mais pobre e não vigorosa, como chegou a ser no período de ouro. A 3ª. Imagem é uma répica do XIV vista na abertura dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro.]

 

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