Os quatro cafés

Luiz Roberto Benatti

Parte significativa da vida politico-administrativa de CTV talvez possa ser recontada por seus cafés, desde que sejam eles entendidos como lugar de ajuntamento de pessoas que conversam, à moda árabe, sobre o dia-a-dia, a vida privada ou os sonhos de ultrapassagem, a utopia, enfim. O primeiro deles, mítico, foi o Café da Marina, na Rua Rio de Janeiro, esquina da Brasil, Praça 1º. de Maio. Marina servia a bebida aos passageiros da antiga Railroad & Co./EFA, quase sempre procedentes de São Paulo, paletó e gravata, mala à mão, vendedores de seda, linho, chapéus, óleo, azeitona, queijo, vinho. Recuado, esse período talvez pudesse ser chamado de Desembarque. Os viajantes transportavam também notícias do mundo mais largo, de tal modo que a velha estação da EFA era nossa ágora trepidante, recoberta de faúlhas e fumaça. Ao lado do café, ficava a primeira versão do Cine central, porque o imaginário,ao mesclar-se com  o bate—papo, ilumina o presente e abre picadas para o futuro.Um dia a moçada ousada da cidade queimou o prediozinho da estação e o pontilhão de madeira da 7 de setembro, porque tanto a ferrugem da República velha quanto os laços desfeitos com Portugal já não respondiam aos nossos sonhos mal delineados. Escalamos o paredão da Rua 3/Brasil e, no Largo do Café/Praça da República, abriu-se o Café da Esquina, até há pouco o mais agitado dos quatro, o único que congregou pobres, remediados e ricos, advogados, médicos, engenheiros, comerciantes, engraxate e jornaleiro. Estivéssemos em Paris e ele teria sido o nosso Café de Flore, porque lhe faltaram largos espaços e mesas, mas não o lugar da calha iluminada para os jornais A cidade e O bandeirantes que podiam ser lidos na dobra da Alagoas com a Brasil. Por ali passaram Hugo Borghi, Adhemar de Barros, Getúlio, Jânio, Lula, Jorge Amado, Zé Lins do Rego, Chaim, Borelli, Warley. Se Baldeação for nome simpático ao café e ao período, vamos chamá-los desse modo. Foi o lugar de troca das velhas indumentárias rurais por roupas urbanas mais coloridas. O Café da Esquina não era o lugar de ajuntamento do “estrangeiro” mas o ponto de encontro dos “de dentro” capazes de sintonizar o que estaria para além de Araraquara, cuja ponte entre pontos distantes foi erguida por Carlos Machado, a criatura que, com Aristides Procópio de Oliveira, encarnou nossa tomada da Bastilha quando ambos incendiaram a Estação. Na revista A feiticeira, Machado projetou a cidade industrial, hoje colocada num desvio ferroviário. Ao lado do Café, ficava o Cineteatro República, em que Carlos Lacerda falou e, a caminho do café, moçada ao redor, respondeu à pergunta sobre o que deveríamos fazer com  a companhia de luz e seu precaríssimo fornecimento de energia. Lacerda respondeu na lata que deveríamos pôr fogo na companhia e foi o que se fez. O Café da Esquina perdeu substância política, os novos administradores não têm mais tempo para o bate-papo, de tal modo que nos enclausuramos num Desvio: o terceiro e o quarto cafés, quer dizer, a Pão & baguete e a Santa Gula abrigam bebedores de café, divididos porém por automóveis caríssimos e distanciamento social. O imaginário cinematográfica apequenou-se no celular, sem direito ao acompanhante. Estamos no período do acúmulo do pouco Capital sobrante e a  dispersão,  nossa dolorida ferida aberta.  Quantos de nós se dispõem a  perder 15 minutos num café para jogar papo fora? Nosso futuro é feito de silêncio e vazio político.

 

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