SENHORITA

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Sérgio Roxo da Fonseca

Por volta de 1950, um bolero muito bonito homenageava os olhos de uma senhorita inalcançável, mas que aceitava dançar um para lá e dois para cá. Boleros, muitos latino-americanos e outros brasileiros, encantaram não somente os salões de baile como também ocuparam um espaço bastante grande nas transmissões radiofônicas. As televisões ainda não haviam chegado.

Os cantores latino-americanos eram muito apreciados. Lembro-me dos sucessos de Lucho Gatica e Manzanero, dentre muitos outros. Agustin Lara compôs “Maria Bonita”.

Os namorados iam à “matinê” e somente os mais velhos ocupavam as cadeiras da segunda sessão do cinema. O cinema atraia a atenção de toda a população.

Viajava-se quase sempre de trem. Até mesmo para as cidades próximas. Era uma demasia uma viagem estirada. Para o estrangeiro, “neris de petiberibe”, se bem me lembro da expressão, como diria um desconhecido Joãozinho Bananal Dagoméia.

As mulheres passaram a usar uma tal manga japonesa e as mais saídas raspavam as pernas e, para escândalo geral, passaram a fumar. E fumar em público.  Uma delas, num momento histórico, tomou o automóvel do marido e saiu dirigindo pela cidade, passando defronte do Pinguim. Os consumidores de chope abandonaram momentaneamente seus copos e correram para a calçada para testemunhar aquele imperdoável pecado mortal.

Aos domingos, antes do jantarado, os mais velhos liam  “O Cruzeiro” e a criançada a revista Tico-tico, com as aventuras do Reco-reco, Bolão e Azeitona. De tarde havia manjar branco para os mais velhos e guaraná para a molecada.

Muita coisa boa mudou de lá para cá. E outras ruins. Muitas delas passaram a habitar a sala das saudades, cercadas pelas paredes da memória.

Esvaziei a minha primeira garrafa de Coca-Cola na casa da minha professora de quarto ano. O manjar branco foi trocado pelo cachorro quente.

Viaja-se para todo lado do mundo, até mesmo ao redor da nossa sala onde fica a TV, a janela platônica do universo.

A turma do Pato Donald matou os meninos do Tico-tico. Pudera, o Pato Donald sempre foi o tio rabugento que nunca arranjou uma noiva. O amigo dele, o Mickey, conseguiu uma, a Minie, mas com ela jamais se casou. O Pateta é o único casado, dizem as más línguas, porque nunca deixou de ser um pateta. O Tio Patinhas ficou rico porque é dono da moeda milagrosa e não porque trabalhou.

No campo das músicas não há o de  que se falar. Canta-se tudo e todos. Menos, é claro, as músicas latino-americanas. Os boleros foram substituídos pelo rock. Muito embora acredite na criatividade dos latino-americanos, nunca mais ouvi o som sincopado de “Senhorita”, aquela dotada de um olhar inesquecível. Muitas coisas boas, muitas coisas ruins… Cadê a Senhorita? Mudou-se para longe.

 

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