A fênix suicida

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Dayher Giménez

 

Alguns poucos espíritos intelectuais distinguem-se de todos os outros por sua extrema sensibilidade. São mais que “antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound. São verdadeiros satélites terrenos, almas que conjugam as significações que pairam entre céus e terra e, por isso, sentem em si mesmos as tensões do Mundo. São sismógrafos metafísicos das vívidas harmonias e das turbulências existenciais da Humanidade.

Via de regra, esses espíritos ou constroem um futuro a partir das ruínas do presente ou sucumbem com o presente tornando-se dele a pedra dilapidada, a hera no muro, o manuscrito rasgado. Enfim, ou produzem uma obra que retrata e trata a crise (superando-a para o porvir de reconstrução da Civilização) ou que a retrata e diagnostica, mas juntamente com ela sucumbe à morte, nem que seja  nos moldes eterno-entrópicos e semi-imortais de um Dorian Gray…

Stefan Zweig foi um intelectual desses que fenecem com seu mundo. A Belle Époque coloriu a juventude do menino judeu de classe alta, mas logo o horizonte vienense de valsas e louros tornou-se acinzentando com o tiro que dilacerou a jugular do arquiduque Francisco Ferdinando. O Império caiu e com sua queda elevaram-se Marx, Nietzsche, Freud e toda a caverna de materialistas, niilistas, cientificistas e positivistas que propiciaram Auschwitz e que se coagularam num homem e numa ideologia: Adolf Hitler e o Ódio à Liberdade.

A obra de Zweig é marcada pela profunda cisão que dividia sua própria alma: (I) o saudosismo do último frêmito romântico-liberal que tinha redourado o Ocidente nos cafés fervilhantes de  arte e filosofia e (II) a visão tempestuosa do totalitarismo batendo à porta dos filhos de Abraão e dos filhos solidários de Jafé. A maioria dos seus livros, porém, ou revisita temas eruditos do passado ou se desdobra em vislumbres cheios de êxtase patológico para com o futuro por medo do presente (seu livro “Brasil, país do futuro” é exemplo pronto e acabado desse ilusionismo fujão). Zweig nunca foi um realista, ou melhor: nunca se deu bem com a Realidade. Seu cérebro afiado sentia a realidade enquanto seu coração bondoso a deformava. Era um idealista demasiadamente civilizado para reagir concretamente contra a barbárie, seja admitindo-a para si como fato histórico cíclico seja escrevendo abertamente contra ela. Preferia discorrer sobre a queda de Constantinopla, tão distante, a escrever sobre os saques da S.S. nos museus que freqüentara ao lado das moças que cortejava.

Deu no que deu. A alma que tecia louvores às igrejas alemãs que abrigavam na mesma nave a missa católica e o culto protestante e se entusiasmava ao revisitar a mística das cabalas nas sinagogas, “de repente” viu profanados os altares que se dobravam a Belém e a Jerusalém, que se dobravam à arca onde eram imolados os cordeiros e à manjedoura onde comiam os cordeirinhos. Stefan fez as malas e fugiu para o Novo Mundo. Fugiu e, quando caiu em si, deprimiu-se, devolveu a tocha a Prometeu e foi se despregar da existência com uma dose cavalar de barbitúricos: + Petrópolis, 23 de fevereiro de 1942.

A visão do Leviatã outra vez lançando caos em nome da ordem subjugou as vozes discordantes, as vozes que viam em Babel sua “felix culpa” democrática. A ditadura ordena uma só língua a uma multidão sempre monofônica…  Os poliglotas e os pacatos falantes de sua fala local devem ser silenciados — tal é a norma do partido que almeja ser totalidade. E, então, diante disso, que poderia ter feito o gentil erudito? Uma boa resposta: perpetuar a civilização sobrevivendo a ela para, então, ajudar com o cultivo das novas sementes e com os novos enxertos da antiga Árvore do Conhecimento pelos continentes.

O intelectual sério é uma fênix que, se morta, renasce das cinzas não dos próprios livros, mas dos próprios feitos de luta pelos livros. Mas… Zweig preferiu suicidar-se. A fênix se suicidou, não sabendo que assim não renasceria das cinzas, mas, como todos os mortais, voltaria ao pó mudo. O grande martírio do homem de espírito não é dar a vida pela causa, mas sustentá-la em cadeias, em prisões, em tempos de cólera antilogos. O grande martírio do intelectual é viver onde só se pode existir. Talvez, convertido a alguma fé, poderia formar um “exército de dois homens” com seu compatriota Otto Maria Carpeaux, que nele encontraria um igual e não precisaria homeostasear-se para ter com quem papear e com quem dividir o pão seco do exílio.

Sic transit gloria mundi.

 

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