CUSTE O QUE CUSTAR

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Sérgio Roxo da Fonseca

Minha família e eu estávamos em um avião que, ao fechar as portas, as máscaras de oxigênio despencaram do teto. Foi um pequeno susto. Alguns homens foram convocados para ajeitar a coisa. Mas o avião perdeu a hora. A refeição de costume foi servida.

O piloto levantou voo e saiu em linha reta para São Paulo, dando cambalhotas, não se desviando de nenhuma das nuvens desafiadoras. Numa delas, talvez a maior, o avião despencou, sofrendo três quedas. As bandejas voavam por cima das cabeças, aspergindo comidas não digeridas por toda a parte. Não preciso dizer que o avião não bateu no chão, mas saiu pererecando como sapo tanoeiro fora da lagoa.

Tratamos de acudir os que mais sofreram. O cantor Ronnie Von, um dos passageiros, muito ajudava os aflitos. Por sua causa, uma senhora desesperada gritava sem parar que todos nós íamos morrer e que só o Ronnie Von sairia no jornal. A profecia gorou, ainda bem. O avião parou de corcovear e descemos em São Paulo.

Tempos após, discutia o episódio com um piloto que acrescentou um testemunho arrepiante. Os pilotos dos aviões modernos têm aparelhos para identificar turbulência, podendo fugir delas. O nosso avião, já atrasado, avançou em linha reta, enfrentando as turbulências para não chegar fora de hora em São Paulo, evitando impedir a baldeação, melhor dizendo, o transbordo de alguns passageiros.

O meu amigo acrescentou que fez várias viagens pilotando aviões de carga. O combustível era reduzido ao máximo para diminuir o peso do transporte para, seguramente, reduzir o custo da operação. Assim os aviões de carga voavam em linha reta, não se desviando de nenhuma turbulência, cruzando nuvens engravidadas de pelotas de gelo que batiam na fuselagem como se fossem foguetes inimigos. Mas, dizia ele, não havia outro caminho com o pouco combustível municiado. Ou assim ou assim mesmo. Nada de desviar-se  da rota. Custe o que custar.

Sou piloto de pequenos aviões. Nem eu mesmo tenho coragem de subir num deles se por mim pilotado. O meu tempo já passou. Agora sou passageiro e, por vezes, muito assustado.

Retirando os dados de minha memória, posso compreender o pavor instantâneo que invadiu a alma dos passageiros do voo da Lamia que carregou os jogadores da Chapecoense para a morte por falta de combustível. Inacreditável! Voavam rumo ao derradeiro fim custando o que custou.

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