O brutal assassínio dos Romanov

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Sílvia Gabas

Pensar que quase cem anos se passaram desde aquela noite fatídica, refletiu Alexei, que manteve por toda vida um interesse aumentado pela morte coletiva dos Romanov, em 17 de julho de 1918, aí incluídos o czar Nicolau II, a czarina Alexandra, suas jovens quatro filhas: Olga, 22 anos, Tatiana, 20, Maria, 18, Anastácia, 16 e também Alexei, quinto e único filho do casal. Uma história que acompanhou  a sua própria, talvez pelo nome homônimo que lhe foi dado ao nascer, numa espécie de homenagem a essa figura da história que acabou por desencadear fatos relevantes e que ainda provoca sentimentos fortes pelas circunstâncias em que o fato se deu. Essa circunstância o transformou numa espécie de especialista da saga dos Romanov naqueles dias de início de século XX.
O assassinato da família real russa pelos bolcheviches, após 78 dias de cativeiro, foi o início de uma orgia de terror que caracterizaram a guerra civil russa, eclodida com a Revolução de Março de 1917.
Ainda imerso em pensamentos, Alexei dizia a si mesmo que a morte coletiva dos Romanov foi um dos momentos mais sanguinários da história mundial, uma barbárie desnecessária por parte de ditos revolucionários que se pretendiam melhores do que a dinastia que derrubaram.
A hemofilia do pequeno Alexei, herdeiro do trono, foi considerada um dos fatores pelos quais o czar Nicolau, tido como um governante frágil e Alexandra foram incapazes de prever a crescente insatisfação popular e a sua queda.Preocupados em esconder o fato do país, isolaram-se, reclusos e distantes, da população. Foi a hemofilia que levou Alexandra, em seu desespero, a procurar Rasputin para salvar o filho.
Lembra, de repente, que é dito que se não houvesse Rasputin, não teria havido Lênin. Rasputin era um “satarets”, homens de Deus que viviam na pobreza, em ascetismo e solidão e ofereciam-se como guia de outras almas em momentos de angústia. Ocorre que Rasputin era uma fraude e seu nome, que significa “dissoluto”, já trazia indícios dessa verdade. Alexandra tornou-se totalmente dependente de suas hipotéticas capacidades curativas, nada fazendo sem consultá-lo. Nicolau, em sua fragilidade, cedia às vontades da czarina e negava todos os apelos por um governo responsável, tornando inevitável o triunfo final de Lênin. Quando a revolução chegou, já era tarde demais.
Alexei revirava mentalmente as memórias, de lá trazendo os acontecimentos que se sucederam. O dia 12 de março foi o ponto de virada. De manhã, o governo do czar ainda existia. À noite, não mais. Abdica em 15 de março, a princípio em favor do pequeno Alexei, de 12 anos de idade, mas logo desiste da ideia e altera a decisão em favor do irmão Miguel, por conta da grave doença de Alexei.
Lembra que os historiados afirmam que nos primeiros dias da revolução, do governo provisório  havia  preocupação em manter o czar e a família em segurança. O asilo na Inglaterra foi solicitado, mas essa acabou por recusar o refúgio ao ex-imperador da Russia. Lênin, que não se encontrava na Rússia na data da revolução, a ela retornou em abril, após 10 anos longe do país e era contrário à saída do czar do território russo, assim como o Soviete como um todo.
A família é enviada à Sibéria, com termômetros com 55 graus abaixo de zero.
Alexei sente um leve tremor em imaginar que tipo de existência pode se ter sob tais temperaturas e que foram o início do enorme sofrimento a que foram submetidos nos dias que se sucederam à deposição de Nicolau.
Em seguida, foram enviados à cidade de Ekaterinburg, nos Urais, onde passaram, de fato, à condição de prisioneiros. Certo é que guardavam ainda a esperança de serem enviados à Inglaterra, mas desconheciam que o Soviete havia votado a favor da execução, fato que permaneceu desconhecido por eles até o momento em que a carnificina ocorreu.
As condições físicas da família foram se deteriorando rapidamente nesse período de 78 dias que transcorreram entre a prisão e o assassinato de todos. Viveram em condições precárias, bem diferentes do conforto a que estavam acostumados. Poucos antes do dia do assassinato, em 16 de julho de 1918, o ânimo da familia já era outro, encontrando a todos com ar cansado, doentio, ansioso e deprimido.
Naquela noite, foram acordados com a notícia de  que precisavam ser retirados do local. Foram levados a uma pequena sala no porão, onde se  sentaram em cadeiras. Alguns empregados e o médico da família os acompanharam no local.
Foram avisados que seriam mortos.
O primeiro a morrer foi Nicolau. Em seguida Alexandra, Olga, Tatiana e Maria morreram rapidamente, assim como os demais empregados. Alexei gemia. Foi chutado selvagemente na cabeça pelo executor que deu dois tiros no ouvido do menino. Anastacia, que havia apenas desmaiado, recobrou a consciência e gritou. Foi morta com baionetas e coronhadas. Estava terminado.
Os corpos foram cortados em pedaços e queimados.
Lenin, ao ouvir o comunicado da execução, continuou calmamente a ler projetos de lei.
A crueldade lógica de Lênin, que considerou necessária a execução da família para amedrontar os inimigos foi eficaz. A partir daí, alastrou-se a doutrina comunista introduzida por ele na Rússia.
Em meio a tantas reflexões uma delas perturbava Alexei de maneira especial:
Por que Lênin triunfou, por que Nicolau fracassou, por que Alexandra colocou o destino do filho, do marido e do império nas mãos de um milagreiro itinerante, por que Alexei sofria de hemofilia? Mereceriam um tão trágico fim?
Mistérios e acasos que influenciam homens, nações e alteram o rumo da história.

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