CINGAPURA E O CUCO DE GREENE

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Sérgio Roxo da Fonseca

Cingapura – Singapura para os nativos – significa “Porto dos Leões”, onde nunca se viu nem um animal dessa espécie, mas, sim, tigres. É possível confundir um leão com um tigre?

A cidade compõe o quadro das cidades localizadas no Sul da Ásia, que refletem  inacreditável crescimento e um sistema normativo, segundo a visão ocidental, conflitante com  seu desmesurado progresso. As cidades concorrem, por exemplo, umas com a outras, para ver quem constrói o prédio mais alto do mundo. A orientação conflita com os novos tempos porque os urbanistas modernos prescrevem visões horizontais e não mais verticais, sempre que possível. Entre Paris e Nova York, os novos tempos consagram a Paris de Haussmann.

A arquitetura de Cingapura,  Hong Kong e  Dubai tende para o céu. Hong Kong, que compõe hoje o território da China, paradoxalmente mantém uma bolsa de valores que funciona dia e noite. Em Dubai toda a água bebida ou servida para molhar seus intermináveis canteiros é retirada do mar. Ali não há água doce razão pela qual a solução foi dessalinizar a água do mar.

O regime de Cingapura foi imposto por Lee Kuan Yew que, ao assumir o governo, segundo a notícia verbal, teria dado vinte quatro horas para os malfeitores escafederem-se. Os que ficaram teriam sido eliminados. Até hoje se aplica a pena de morte para os crimes graves e chibatadas sobre os menos perigosos.

Cingapura economicamente é um dos países mais avançados do mundo. A sua política econômica baseia-se na atração de grandes empresas internacionais. Lee Kuan Yew confessava ser socialista, mas anticomunista. Seu filho é hoje primeiro ministro que segue as pegadas paternas.

A minha recente visita trouxe do fundo da minha memória o diálogo travado na roda gigante de Viena, imortalizado pelo clássico filme inglês “O Terceiro Homem”, que vi incontáveis vezes. Dois amigos ali se encontram. Um é bom, outro não é. O amigo mau tenta justificar sua conduta com o bom amigo, com o seguinte argumento.

“No passado, a Itália foi governada por ditadores sanguinários e gerou Michelangelo, Maquiavel, Da Vinci, e outros gênios. A Suíça, ao contrário, vive sob democracia há quinhentos anos e somente criou o relógio do cuco”.

É óbvio que o argumento é falso, mas exige perfeita e profunda compreensão para a réplica. O filme foi baseado em texto do extraordinário Graham Greene, tendo como atores principais Orson Welles, o amigo mau, Joseph Cotten, o amigo bom, e, Alida Valli, a mulher inalcançável. Anton Karas, com sua cítara, foi o autor da música consagrada por estrondoso sucesso. O filme é expressionista, datado de 1942.

No filme o mal é derrotado, mas o bem não sai vitorioso. Coisa de inglês. Qual seria o juízo a ser feito de Cingapura, sob o critério de Graham Grenne?  O tema exige  excepcional e interminável reflexão.  Do panorama poliédrico de Cingapura, tentei ver a cidade pela lente dupla de Graham Greene, o bem e o mal, sem alcançar, pelas minhas confessadas limitações, a necessária firmeza na síntese: o relógio do cuco nasceu na Suíça? E o leão pode ser confundido com um tigre? Talvez possa.

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