A noção de ícone e o pensamento nebuloso (versão discretamente aumentada)

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Luiz Roberto Benatti

Brigitte Bardot, em nossos dias envelhecida e ocupada com a proteção de animais, foi um ícone de tal modo esfuziante, que a moçada jamais poderá saber como se deu isso tanto na teoria quanto na prática das fantasias sobre a migração do ícone para o nosso imaginário.Os ícones saem dum ponto e vão para outro ou então empacam no meio do caminho onde tinha/havia uma pedra drummondiana.Sem Brigitte não haveria a Globo com suas celebridades na secundaterceiridade. Cria-se o ícone e ele se enfia nas cavernas de nossas circunvoluções cerebrais. Notícias populares fez da atriz francesa a musa de todos os dias e a estampou na capa que, vista à distância na banca de jornais, levava o motorista no Cebolão a estender pelo vidro o dinheiro do jornal. Longe da ex-posa, perto do ícone. Brigitte comprava e vendia litros e mais litros de nossa inflamada libido tupiniquim. Ela foi musa de borracheiro e de Kees Von Dongen, pintor holandês (esse cara da foto) que tentou levar Cândido Portinari para uma anatomia mais solta, mas Candinho preferiu dialogar com um Picasso brodosquiano.Quem sai aos seus não se degenera, ainda que Portinari tivesse sido vítima de envenamento por chumbo de suas tintas. Von Dongen conviveu com Pablo Picasso, Portinari com Di Cavalcanti. Os russos bizantinos inventaram o ícone e, com isso, tornaram visível aquilo que na Bíblia estava apenas escrito: a Virgem Maria e o menino Jesus, aos quais seguiram-se outros ícones. Um deles – o mais vigoroso e colorido de todos – chamou-se Besarion Jughashvili que poucos sabem quem foi, a não ser que você o chame por Stálin. O Stálin da infância foi feio e pobre, ao contrário do segundo e definitivo que arrumou a cabeleira, aparou o bigode, aprumou o peito e deportou 3 milhões de dissidentes para a Sibéria em caminhões de gado.Machão. Jorge Amado entrou num salão de beleza, de onde saiu com a cara do ditador russo. Gordinho e mignon como Hitchcock Portinari não pôde assemelhar-se com Stálin, a não ser como adepto fiel do comunismo stalinista nas searas de Pindorama. Em 1945, ele discursou como candidato ao Senado, no Pacaembu, ano em que havia nos campos de trabalho do Gulag 700 mil presos políticos. Morriam 43 mil pessoas por ano. Moscas de Sartre. Portinari devia estar feliz ou indiferente a tudo isso porque não só não reclamou como também criou o mito dos retirantes esquálidos e famintos que, em nossos dias, retroalimentam o coração do PT. Miséria e política, desde que para nós sirvam caviar. Sem mito ninguém vai até a esquina, assobia e volta. Os ícones petistas vêm de longe ou dos estertores do século XIX. Almeida Júnior fabricou o ícone rural com O violeiro (o capiau é lindo de morrer) e, com a tela A leitura – o mito de que só os ricos perfumados adoram ler. Mais tarde, o competente Lima Barreto colou nos ícones de Almeida Júnior a figura bizarra do Policarpo Quaresma que naufragou, no ano anterior ao do desastre do Titanic, com os projetos icônicos da Língua, a agricultura e a política. Um dia, Dayher, seremos um país de verdade e a turma ficará up date. Brigitte esbanjava sensualidade, Dongen foi um velho safado e Portinari um serviçal do ex-sr. Besarion, Stálin para os inimigos.Filha pobre de imigrantes italianos, Marisa Letícia foi babá das sobrinhas e Portinari, numa época em que ela devia desconhecer que o tio das meninas tinha sido apaixonado adminirador de Stálin, mais tarde rejeitado por seu futuro marido, Lula. Lula e grande parte da cúpula do PT dos primeiros dias era trotskista. Na casa das sobrinhas de Candinho, Letícia esteve bem próxima do grande inimigo de Trótski.

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