Raduan Nassar escreve ou escrevia numa máquina de criptografar emoções

Luiz Roberto Benatti

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A máquina foi usada pelos alemães na Segunda guerra mundial para criptografar estratégias bélicas, deslocamento de tropa etc. A partir de Um copo de cólera, Raduan passou a criptografar suas emoções e sentimentos literários numa máquina embutida entre inconsciente e consciente. Lançado depois de Lavoura arcaica, o minúsculo romance foi lido e relido como obra que instigasse no leitor o desassossego sexual. Ali, no ermo da chácara, achavam-se a carne e o espírito do apelo sexual provocado no macho pela fêmea jornalista fogosa. A brevidade da obra servia muito bem à releitura, a que o filme com Alexandre Borges e a mulher Lílian Lemmertz permitiram-nos examinar de perto, ainda que virtualmente, as delícias do interdito. No filme, Borges caminha em direção da mulher nua com seu aparato engatilhado e o leitor, homem ou mulher, viaja para as estrelas. Raduan deve lido esses entrechos inúmeras vezes, contudo, se os retocou, talvez jamais iremos compulsar os rascunhos ou, situação à primeira vista mais simples,não saberemos  em que anos ele, de fato, trabalhou na obra. Seria importante conhecer a datação, porque ela nos permitiria identificar o  período  coincidente  com suas leituras de formação e o que  ele leu na excelente biblioteca de sua irmã, a professora Rosa Nassar de Oliveira, nos tempos em que o escritor frequentou o velho Liceo Rio Branco. Arriscaria dizer que Um copo de cólera, no bom sentido, é um produto digest de O amante de lady Chatterley, de D.H. Lawrence, autor dum romance tido por tão pornográfico. que permaneceu décadas nas mesas de censores dos tribunais norte-americanos.Oliver Mellors é o incandescente jardineiro da rica propriedade do marido paralítico da dama chamejante. Onze anos antes de Raduan vir ao mundo em Pindorama, Lawrence , depois duma viagem ao Novo México, solicitou a alguns amigos que se transferissem para Taos a fim de  de fundar uma sociedade utópica – Rananim, que poderia estar tanto na Fazenda da Lagoa do Sino quanto em Yasnaia Polyana de Leon Tolstói. Um dia, meio atrapalhado comigo mesmo e com minhas elucubrações incertas, perguntei ao Raduan, no Bazar 13 da Rua Teodoro Sampaio, se o inconsciente, à revelia do consciente, poderia tornar-se consciente. Não sei mais se ele respondeu à pergunta, mas o fato é que Freud referiu-se às idéias incidentes que talvez  abonassem nossa quase-metáfora: como toda criatura imaginativa, o Raduan que foi se fazendo lembra o big-bang que lançou faúlhas e porções incandescentes no imenso espaço de solidão cósmica, cujos constituintes estavam no que ele leu e, quem sabe, nas galinhas de angola que lhe deu o pai – o sr. Nassar e não Nasser, ainda que o segundo seja tido como um dos difusores da visão terceiro-mundista da qual o escritor parece ser adepto.

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