Gap, lacuna: tempos variados  da poesia norte-americana e brasileira

Luiz Roberto Benatti

 

Os gráficos de frequência no uso dos vocábulos louco ou insanidade, de acordo com o Ngram viewer, atingiram o ponto mais elevado entre 1900 e 1930, fato que, com algumas pitadas de ironia, poderia demonstrar que os doidos de qualquer tipo travestiram-se de sãos antes ou depois desse período. Na política, os fascismos pareceram confortavelmente sadios a muita gente. Jungueira Freire, monge beneditino muito sofrido, mais tarde tornado patrono da ABL, escreveu um poema chamado Louco, na época de maior uso da palavra. O poeta aponta para a cisão entre espírito e matéria, vítima daquele: “Não, não é louco. O espírito somente/é que quebra-lhe um elo da matéria”.O louco de Jungueira é como o povaréu de Itaguaí nO alienista de Machado de Assis: doido era quem chamava de insano ao outro. “Pensa melhor que nós, pensa mais livre,/aproxima-se mais à essência etérea,” Ao comungar com a matéria fragmentada, o poeta abre ao insano a via crucis da alma que o conduzirá aos Céus. O louco do poema não habita a imanência. Tudo à sua volta é matéria desconjuntada e meio apodrecida, cujos parasitas movimentam-se rumo a uma luz negra um pouco semelhante à ilusão zen-budista. Nosso reino não é deste mundo. Entre o poeta e o Real, abre-se grande lacuna, vazio galáctico impreenchível. Em 1850, Walt Whitman viu estampadas as primeiras folhas de Folhas de relva, imensas: Song of myself, por exemplo, tem 1336 linhas ou versos. Os olhos de Whitman estão cravados no mundo circundante.Em Cenário de fazenda, ele escreveu: “através de ampla porta aberta dum calmo celeiro de campo/com a pastagem iluminada pelo sol e o gado e os cavalos a pastar,/a neblina, o panorama e o horizonte distante desaparecem”. Porta, celeiro, pastagem, gado, cavalos, neblina, panorama, horizonte são configurações do mundo circundante que o olhar do observador capta como se levasse no interior do cérebro  uma câmara cinematográfica que encerrasse as tomadas com fade-out. Conclui-se, portanto, que Jungueira é poeta da intémina mentação pela qual ele se dá conta de que a vida é tão efêmera quanto cruel, ao contrário de Whitman que sorve com o oxigênio o ímpeto de total entrega à vida. Contemporâneo do poeta de Folhas de relva, Winslow Homer, como foi o caso de Almeida Júnior na mesma época, pintou muitas vezes o mundo rural à sua volta, com a diferença de que Homer viu o que estava ali, enquanto que Almeida Jr. viu o que poderia estar ali, de modo idílico. Compare as duas paisagens:

No brasileiro, o remanso, o horizonte largo, o céu tranquilo, pai e filho consorciados na pesca;no norte-americano, o tronco arcado pelo esforço da faina e o horizonte estreito. Almeida Jr. parece dizer que mesmo na vida dos pobres sempre iremos encontrar a estrada para a felicidade, enquanto que em Homer a assertiva é de que você terá de lutar da madrugada alta até a noite para garantir à família o pão nosso de cada dia.

Em 1913, Mário de Andrade, como Eliot, em 1921 ou 22, ficou com os nervos em frangalhos. Eliot pela fadiga e a mesmice  com a obsessão pelo dinheiro no banco em que trabalhava e Mário em razão da queda do irmão que fraturou o crânio e acabou por contrair meningite. Apavorado com a idéia de que o irmão, pelo restante de seus dias, não teria mais juízo, o poeta de Lira paulistana desejou-lhe a morte, fato que se deu. Mário entrou numa crise nervosa da qual não se recuperou até o fim da vida. Na 3ª. parte de The waste land, chamada  de  O sermão do fogo, lemos: “On Margate sands/I can connect/nothing with nothing. Mário continuou a estudar música muitas horas por dia e Eliot foi para Margate, na Inglaterra, para se tratar de delírio e esnobismo, como o protagonista de William Thackeray, cuja movimentação ocorreu em Margate. A mulher de Eliot – Vivien – também cruzava uma fase mentalmente instável. O grande poema de Eliot, revisto e corrigido por Ezra Pound, foi publicado no ano da inefável semana de arte moderna de SP, mas não sabemos quem dos participantes o conheceu, já que, pelo gap que nos separa dos norte-americanos, líamos Blaise Cendrars. Todavia, no mês de abril talvez haja um fiapo de identidade entre Eliot e Mário de Andrade. Lembram-se: “A tarde se deitava nos meus olhos/e a fuga da hora me entregava abril/um sabor familiar de até logo criava/um ar, e, não sei por que, te percebi”. O abril outoniço de Mário reveste-se desse encanto do convívio de família bem ao nosso gosto, a que se soma a falsa distração, como se disséssemos: Ah, você estava aí e eu não notei. O abril de Eliot é o mês mais cruel e não importa que no Norte ele prenuncie a Primavera, ao contrário do Inverno que nos manterá aquecidos. Eliot faz com que aflorem no poema as lembranças amargas. Em Mário, as lembranças amargas serão anunciadas tardiamente por Nêmesis. Escamoteamos a dor. A vida terá sempre de  ser doce. Nessa quadra da vida, será possível estender sobre a lacuna das diferenças uma ponte frágil que nos permitiria chegar ao outro lado certos de que falávamos as mesmas coisas, com Edward Hopper e Tarsila do Amaral, se não vejamos:

Solidão e loucura.

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