PASSARINHO

001

Sérgio Roxo da Fonseca

            “Mauro bate o tiro de meta que roda a pelota pelos ares, até Vavá que, mata no peito e empurra para Garrincha que fez que foi e foi mesmo, centrando para Amarildo marcar de cabeçada. Gol do Brasil. Gol do Brasil. Treme o chão do Estádio Centenário. Gol do Brasil. Gol do Brasil brasileiro”.

            Assim o Passarinho irradiava diariamente o desenvolvimento do jogo dos nossos heróis nacionais que lutaram pela bandeira brasileira em terras chilenas. A Copa já havia se encerrado há anos. Mas toda tarde, o animado Passarinho honrava a tradição, transmitindo sempre a mesma partida posto na esquina das Lojas Pernambucanas. Ininterruptamente até o fim do horário comercial.

            A cidade toda gostava do Passarinho e da memória delirante que tinha daquele extraordinário feito brasileiro que tantos aplausos colheram em terra estrangeira. O locutor passava toda tarde, fizesse frio ou calor, cumprindo as regras do seu glorioso trabalho, sempre vestido com uma camiseta de jogador e um boné verde e amarelo.

            De tempo em tempo, Passarinho interrompia para fazer a propaganda de remédios que, segundo ele, mantinham o seu trabalho de jornalista esportivo de reconhecimento internacional. Um deles era a famosíssima “pomada de basilicão” e o outro era uma desconhecida “Glindéria de Oliveira Júnior” que não era encontrada nem mesmo na Farmácia Tiradentes. Todos conheciam a pomada, mas ninguém até hoje investigou o que era e qual a serventia da tal “Glindéria de Oliveira Júnior”.

            Numa certa tarde, o Toninho Barrabás, incontido aluno da quarta série, passando por lá chamou o Passarinho de Canarinho. Não precisou de mais nada. O Passarinho explodiu de muita raiva simplesmente porque não era Canarinho, mas, sim, Passarinho. Para defender sua honra ferida, agarrou o Barrabás e lhe aplicou o castigo merecido, saindo rolando com ele pela calçada.

            Prenderam o Passarinho no “Péla Porco”. No meio da noite, com o dever a ser cumprido, passou a irradiar a partida com a pelota agora nos pés de Zito que, driblando um e dois, passou para o Didi sapecar a sua inesquecível “folha seca” para dentro das redes adversárias. Gol. Gol do Brasil gritou ele para a audiência irritada dos demais hóspedes do “Péla Porco”. Já era de noite.

            Deitaram tantas bordoadas no Passarinho que acabou desmaiando caindo no cimento frio. Como não acordava, convocaram  o carcereiro que  acudiu resmungando contra todos os capetas do inferno. E também contra as mães dos seus hóspedes.

            Imediatamente perguntou o que havia ocorrido com o Canarinho, recebendo como resposta que não era Canarinho, mas, sim, Passarinho. Que havia caído do seu poleiro, melhor dizendo, de sua cama, batendo com a testa no chão.

            O Passarinho não acordou, nem mesmo para reclamar do nome Canarinho, pois estava indo para um mundo sem nome. Já havia então atravessado todos os limites da humanidade, onde nem mesmo existia pomada de basilicão, nem de bola com Gilmar. Não era mais hora de pensar. Nem de registrar gol do Brasil. Jamais encontraria a grandeza e a solidão da esquina das Lojas Pernambucanas.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s