BERNARDINO SORVETEIRO

Sérgio Roxo da Fonseca

 

            Tenho perguntado aos meus contemporâneos qual seria o instrumento de sua memória que documenta o período da nossa infância. Inclusive aqueles que nem mais residem em Ribeirão Preto. Quase sempre elegem o sabor do sorvete de leite feito pelo Bernardino.

            A experiência lembra o extraordinário “Em Busca do Tempo Perdido” tendo em conta que Proust registra que escreveu o seu extenso romance após ter uma experiência semelhante. Ao tomar um chá de tília acompanhado com uma madalena, biscoito francês, sua memória, por conta do sabor, abriu as portas do seu passado, transportando-o, inicialmente, à sua infância, quando então narra a primeira parte do seu longo trabalho sob o título de “No Caminho de Swann”.

            Anoto que Sérgio Buarque de Hollanda, após aplaudir o trabalho do tradutor brasileiro, Mário Quintana, criticou a tradução por ele dada ao título, que lhe parece que teria recebido a influência da tradução inglesa, “Swann’s Way”. Proust batizou a narrativa com o nome de “Du côté de chez Swann”. Buarque de Hollanda observa que o autor não quis, com o título, fazer a indicação geográfica da casa de Swann, mas, sim, transformá-lo no símbolo individualista da nova França. Portanto, a melhor tradução seria “Na direção de Swann”, ou seja, na direção da nova França.

            Seria possível transportar a lição de Buarque de Hollanda para a época em que terminava a Segunda Grande Guerra, dias nos quais fomos para a primeira escola em busca da alfabetização? O sorvete no lugar de Swann?

            Com autorização médica, resolvi buscar resposta à indagação intrigante. Fui ao meu atual sorveteiro e consultei que sorvete é o tal do sorvete de leite. Respondeu-me que era o sorvete de nata. Desenvolvi a minha pesquisa pedindo uma casquinha. Para minha surpresa, o sorvete de nata pouco ou nada lembra o sabor do sorvete de leite que guardo na memória. Há razão para isso?

            A resposta foi positiva. O sorvete de leite era feito com leite não pasteurizado. O sorvete de nata com leite pasteurizado. Este segue o caminho dos novos tempos. Aquele indica um caminho guardado nos escaninhos da memória. Não há mais o sorvete de leite natural. É proibido usar leite natural porque hoje transmite doenças que não existiam então. Ou se existiam não causavam tanto mal como “espinhela caída”, esta sim atemorizava multidões.

            Curiosamente, o sabor do passado permanece na nossa memória, tanto que ainda conseguimos realizar o diagnóstico diferencial entre um sorvete e outro, mesmo depois de passados mais de setenta anos de caminhadas pelas veredas e pelas não-veredas que nos levam tanto ao passado quanto às sorveterias. . Ainda temos memória para identificar a individualidade daquele antigo sabor mesmo reconhecendo que o manto escuro do silêncio começa a descer sobre os novos e os antigos passos.     Por que o sabor do chá de tília levou Proust a escrever um romance com sete livros? Por que o sabor do sorvete de leite do passado encontra-se ainda oculto na memória já cansada dos seus contemporâneos?  Ou será que aquele tempo não está perdido, podendo ser recuperado?  Difícil identificar a ponte que liga o hoje com o ontem que se nega a passar. Que a ponte não seja destruída. Ou pelo menos que suporte outros dias qualificados pelos tantos sorvetes do passado e do presente.

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