O MESMO E O OUTRO

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                        Sérgio Roxo da Fonseca

            O “mesmo” é o pressuposto do “outro” e vice-versa. Não há um “mesmo” sem um “outro”. Uma classificação só se faz medindo as características do mesmo se identificada no outro.

            O Orozimbo assim filosofava olhando para a placa fixada na porta do elevador que dizia: somente ingresse depois de verificar se o “mesmo” está parado no andar. Se há um mesmo elevador é porque naquele mesmo lugar há um outro. Pode ser o outro que esteja ali parado e não o mesmo? Será possível que numa mesma coluna de um prédio transite um elevador que é o “mesmo” juntamente com o outro que se chama “outro”? Será o Benedito, indagou?

            Ficou mais apavorado ainda supondo a possibilidade de errar não entrando no “mesmo”. O outro o levaria para qual destino, o quinto andar? Não seria o mesmo destino do outro? O mesmo seguiria para o céu e o outro para os quintos do inferno?

            O rio do Heráclito é surpreendentemente o outro sem jamais ser o mesmo. Dizia o grego: ninguém entrará no mesmo rio duas vezes porque na segunda o rio já é outro. E até você também será outro. O mesmo rio é sempre o outro? A mesma pessoa sempre será a outra?

            Orozimbo acabou sentando-se num dos bancos da Praça XV quando lhe veio do fundo da memória outra inexplicável experiência.

            O seu médico encaminhou-o à nutricionista porque estava inexplicavelmente magro, muito magro. Ao entrar na sala de espera foi esmagado por uma dúzia de olhos componentes de pessoas gordas, muito gordas. Ele mesmo magro na presença de uma tribo de gordos. Os gordos olhavam o magro enquanto o magro mirava os gordos.  Ele havia sido transformado na antítese insular do ambiente: um magro esquelético numa sala cercada de gordos por todos os lados.

            Havia se transformado no mesmo dos outros ou no outro dos mesmos? Se for o mesmo então Orozimbo estava transmitindo suas características para identificar os outros gordos.

            Se assim não fosse, os outros não seriam gordos  nem magros. Não teriam identificação, devendo ser expulsos do mundo das linguagens, porta afora. Somente existe um discurso classificador se houver um mesmo contrastando com um outro.

            E o elevador veio da memória. O jeito é subir pelas escadas para acabar no mesmo céu pretendido ou no outro inferno inesperado. Tudo se não houver as características definidas de um mesmo para servir de modelo teórico para todos os outros.

            O argentino Jorge Luís Borges afirmou que encontrou numa enciclopédia chinesa a seguinte classificação de animais: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de carneiro; l) et coetera; m) que acabam de quebrar a bilha; n) que de longe parecem moscas”.

            Foucault, arrastando o tema de Borges para o campo do mesmo e do outro, escreveu o genial livro “As Palavras e as Coisas” que muito auxiliou o Orozimbo a escolher então o elevador certo.

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