A Cultura é necessária?  

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Luiz Roberto Benatti

Por alguns anos, fui free-lancer de programas de cultura no SESC. No mais das vezes, a entidade local recebia  projeto de música ou literatura, elaborado à distância e remontado no bravo interior. A gerência viabilizava os trâmites burocráticos com pagamento por serviços executados na cidade. Com Silvana Ambrósio,  projetei o KIL (nada a ver com kill), o kit itinerante do livro, minúsculo ovo de codorna colombiana que não só ficou de pé como, depois, foi importado  pela matriz e reexpedito para outras localidades. Tratava-se duma estante com 20 ou 30 volumes ancorados numa empresa por um ou dois meses. Alguém da firma fazia as vezes de biliotecário, anotava a retirada e cobrava do leitor a devolução do volume. Mais tarde, o primeiro kit era trocado por outro e o da empresa x era deslocado para outro local, até que, um ano depois, muitos volumes tivessem  sido lidos. Foi um fenômeno de eficiência,  criatividade e mobilidade do livro. O segundo projeto gestado em CTV foi a mesa com o escritor: a ideia da mesa de café de casinhola da roça, toalha quadriculada feita de saco de farinha, bolinho de chuva, bate-papo. O livro era escolhido pelo SESC e os professores das escolas da cidade, os volumes eram enviados às escolas, os professores convidavam a criançada para ler e, a seguir, escrever sobre o que tinham lido. Recebemos milhares de redações, lidas e avaliadas, premiamos as melhores, o escritor nos visitava, dirigia-se aos escolares, falava de suas vivências e do ofício de escrever. No coroamento do processo, professores, alunos e familiares eram recebidos na quadra de esportes.Aquelas crianças cresceram, constituíram família e puseram filho no mundo.  A moda pegou e, como pegou, serviu para desmentir o problema de gestão não criativa do SESC, quer dizer, a cidade elaborou  dois programas competentes. Nos tempos heroicos de Kazuo Kuzuhara, os frequentadores do SESC puderam ver tela de Lasar Segall. Se a palavra milagre vem de mirabilis e mirabilis é aquilo que se vê, então o milagre de semeadura da cultura foi feito. Nessa linha de raciocínio, lembro que a terceira versão da estação da EFA achava-se no mesmo lugar desde 1910, sem que o ovo de Colombo tivesse sido posto de pé, até que numa famosa manhã dos primeiros dias afonsinos, no 5º. andar do prédio da prefeitura, joguei na mesa,com casca e tudo, a idéia de transformar a estação num local de difusão da Cultura. Evandro Ceneviva ergueu a cabeça, afastou a cadeira e, rápido, deixou a sala para dirigir-se ao gabinete. Quem tem memória para se lembrar, sabe que as coisas se deram desse modo e que, por dois anos, a cidade viu o que jamais tinha sido mostrado: a produção local de Cultura e sua difusão na comunidade. Quem sabe o mais conhece de cor e salteado o menos.

 

 

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