Como tornar claras nossas idéias e, com isso, ingressar na Modernidade

Luiz Roberto Benatti

 Parte do título é de Charles Sanders Peirce, filósofo e matemático norte-americano, preocupado talvez com os perigos do obscurantismo. As idéias embaralhadas resultaram dum curto-circuito responsável pela plena escuridão no túnel em que nos metemos: canal de águas podres. Comecemos por lembrança antiga. Morava eu com a família na Praça da República, entre o Cineteatro República e o Café da esquina, onde hoje se instalou a loja do $ 1,99, sinal dos tempos de cacarecos aos montes, triunfo do pinguim de geladeira. Ali, o dia todo e até bem tarde da noite, reunia-se a fina flor da cidade, o vendedor de bilhetes de loteria, o engraxate, o advogado, o professor, o engenheiro, para ouvir ou narrar sobre a cidade, o País e o mundo. As crianças penduravam-se nas calças dos adultos, ouvidos abertos, olhos arregalados. Houve o caso dum moço bem conhecido na cidade que, depois de cumprir pena na penitenciária do Estado, foi solto e, assim que desceu na estação da EFA, ajuntou-se na praça com os curiosos que tudo queriam saber sobre a vida por trás  das grades. Ele falou da bóia, do carteado, do banho de sol, até que alguém o inquiriu sobre a falta de mulher, porque nesse tempo tão distante não tinham ainda arquitetado o quartinho íntimo. O moço saiu-se com uma afirmação inesquecível: disse que a falta de fêmea tinha sido terrível e que pensara em solicitar ao Estado que dessem aos presos mulheres infláveis. Leve em conta o leitor que estávamos nos anos 50s. É com essa lembrança muito viva na memória que olho para a boneca-mulher de silicone que a indústria japonesa vende aos solitários que com elas se deitam com fervor religioso certos de que, desse modo, escaparão ao suplício da solidão plena. Se o Estado brasileiro, ora falido, pensar em algo semelhante para os nossos tarados, talvez seja possível diminuir casos de estupro seguidos ou não de assassínio, ou então de gravidez indesejada. Foi talvez pensando nisso que Simone Veil, cabeça larga, alma generosa, aprovou em 1975 na França a lei de legalização do aborto, impensável num País que mente sobre os sentimentos e faz da piedade espetáculo de circo mambembe. A dor real é da mulher estuprada e jamais será minha. Veil esteve internada em Auschwitz onde morreram os pais e irmão. Nos campos nasceram crianças que a seguir foram mortas pelos carrascos nazistas. Em nosso território, nas pequenas ou grandes cidades, há minicampos de concentração que em tudo e por tudo repetem as atrocidades dos campos alemães ou poloneses da Segunda guerra. Precisamos ler Peirce e Simone Veil.

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