TAPROBANA

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 Sérgio Roxo da Fonseca
 
         Tive oportunidade de examinar uma peça de roupa masculina fabricada na Itália, segundo testemunhava a gentil vendedora. Acrescentava que se tratava de uma marca internacionalmente consagrada, refletindo em seus cortes a tradição da costura de Milão.
         Em casa, ao examinar a peça adquirida descobri que era italiana apenas na marca porque fabricada em Sri Lanka, uma ilha que conforma um país que se localiza ao sul da Índia. Colombo é a sua capital.
         A minha antiga devoção pela geografia levou-me a procurar alguma coisa sobre Sri Lanka. Descobri que o país mudou de nome há pouco tempo. Chamava-se Ceilão. Sri Lanka e a vizinha Cingapura trazem em seus nomes o signo do leão, animal desconhecido pelas suas matas. A forma substitui o conteúdo.
         Antes de Sri Lanka ser como Ceilão, pelos gregos recebeu o batismo de Taprobana. Taprobana? A palavra levou-me de volta aos bancos escolares. Ali Camões falava-me pelos “Os Lusíadas” sobre saga dos portugueses, ao descobrir o mundo para o mundo.  Segundo os extraordinários versos, os heróis lusitanos chegaram além da Taprobana, ou seja, além do Ceilão, ou como diriam os livros modernos, além de Siri Lanka. Navegando ao sabor dos ventos e das correntes marítimas,
         Então aquela roupa italiana foi fabricada na Taprobana, a se usar a linguagem de Camões? Os taprobanenses usam também roupas italianas fabricadas em Sri Lanka?
         Um amigo afirmou-me que fábricas espalhadas pelos mares nunca de antes navegados, fabricam mercadorias de todas as marcas consagradas pela mídia em número superior ao das estrelas do céu. Acrescentou que vários navios foram transformados em fábricas depositando suas encomendas em qualquer porto, sem sequer pagar imposto ou débitos trabalhistas. Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, mas nunca uma solução, sentenciava o porta.
         As mercadorias internacionalizadas usam uma linguagem aculturada com o poder de transformar um objeto anônimo e apátrida na consagração de um sonho até então não desejado, sequer conhecido pelo consumidor. Nos nossos tempos a fantasia do sonho matou a dura realidade, indo muito além da Taprobana.
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