Gray ou grey, alegres ou tristes, somos todos imitadores  de Dorian

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Luiz Roberto Benatti

Para os freudianos, seria pura heresia lembrar que o famoso divã é móvel-símbolo do hedonismo vitoriano: sentar-se de pernas cruzadas, flor na lapela, bengala de castão de prata ao lado, o amante, baforadas de fumo, perfume, uma belíssima mulher e a conversa revestida de chistes que se prolongam pela interminável tarde fria de Londres. Os criados servem o chá, alimentam o fogo da lareira, o cocheiro escova o cavalo na baia, o proletário esfola-se na caldeira. Oscar Wilde criou para o ócio o melhor cenário, a ponto de outro não ter sido concebido nos últimos 120 anos, a partir da publicação da novela no Lippincott’s, em 1890. Movido por forte ataque de pudor, o editor da revista cortou dos originais 500 palavras, mais tarde reincorporadas às edições sucessivas. Os acadêmicos ingleses entenderam que a novela era gótica, mas também que se trata dum produto fantástico que se abeberou no Fausto de Goethe. Seja como for, Wilde e Goethe foram dois demônios de qualidades supremas e que se deram conta de que  o mundo, para ser atraente, deveria atuar conforme seus roteiros. Freud ajeitou as coisas para insuflar o pecado na forma de neurose. Em duas palavras, o que diz a novela? Apaixonado pela beleza estonteante de Dorian, Basil Hallward pinta o retrato do moço e, mais tarde, o apresenta a Lorde Henry Wotton, fulgurante figura da hedonismo aristocrático. O rapaz reconhece a própria beleza mas não quer enrugar-se com a passagem do tempo nem assistir à queda das melenas, adoecer e morrer Nesse ponto, entra Fausto com o pacto renovado: troca-se a juventude eterna pela decomposição da efígie. O retrato pintado assiste à decadência do corpo. O Síndrome de Dorian Gray providencia cremes e perfumes contra a impotência, roupas de estilo, relógio e automóvel e a recomposição muscular na academia. Nesse teatro não há lugar para humilhados e ofendidos. Até mesmo na Cracolância você encontra um sofá desconjuntado.

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