O lugar do celular é um não-lugar

001

Luiz Roberto Benatti

A primeira pergunta de quem liga para alguém dum celular é Onde você está? A localização do outro deve ser entendida como prioritária, porque somente depois da resposta é que  iremos questionar sobre  emoção,   estado de espírito ou tempo físico, quer dizer, frio ou calor. O celular nos conecta com uma voz, quase sempre um som conhecido, cuja corporeidade não se traduz em bits e isso implica em dizer que a verdade ou mentira do que dizemos ou ouvimos terá de ser lida nas hesitações da voz bem como na escolha de determinados vocábulos. A voz do falante poderá ser rastreada: nos filmes policiais, o perigo imediato da localização poderá ser minimizado pela troca de chips ou então pelo gesto de livrar-se do aparelho atirando-o numa lixeira ou numa grelha no meio-fio. A difusão  multiplicada do celular coincide com a diminuição da presença/ausência dos Ovnis, assunto com que nos ocupamos por muito tempo: causavam medo, emitiam luzes, faziam manobras impressionantes no ar, pousavam em canaviais, eram tripulados por estranhas criaturas vindas de não se sabe onde. Os Ovnis também eram adverbiais, portanto locativos, ainda que sua geografia de procedência só pudesse ser revelada por nosso imaginário. A adverbialidade do celular dispensa o mistério, mas é sumamente importante saber que os falantes acham-se confinados num lugar qualquer e não soltos no espaço cósmico. Nos tempos das velhas cabines telefônicas, a primeira voz não era a de quem queria falar com você ou com outra pessoa da casa ou da empresa, mas da telefonista que emprestava à ligação a realidade geográfica: você estava em São Paulo ou em Nova York. A cabine tinha porta e você não dividia com outras pessoas à sua volta o conteúdo da conversa. Tais ligações no mais das vezes eram feitas pelo fazendeiro que, ainda que falasse de seu escritório na casa, não desejava partilhar o preço da saca de café com o meeiro. Os assuntos eram mais ou menos estanques. Pelo celular, o preço do grama da cocaína poderá ser ouvido pelo viajante do banco ao lado numa viagem de ônibus. Até certo ponto, caminhamos para uma certa diluição dos segredos. Se não nos filmes da série Dr. Who, não inventamos um celuar para o tempo como matéria do cotidiano, o que torna as esculturas de Richard Serra algo enigmáticas. A que ilustra a presente digressão chama-se Matéria do tempo.  

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s